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terça-feira, 4 de junho de 2013

A IMPORTÂNCIA DO ESTUDO DAS PALAVRAS EM LÍNGUA PORTUGUESA

 

 

      A comunicação é o motor da inter-relação entre os seres humanos, contínua, permanente, obrigatória. A linguagem é o seu combustível. A linguagem é um instrumento brandido sobre nossas cabeças desde o nascimento até aos mais elevados níveis de aperfeiçoamento intelectual. E a linguagem se faz, particularmente, pelas palavras. Logo, é importante o estudo das palavras e suas significações.
      O estudo das palavras e de suas significações, dentro da cultura a que a língua serve, é de grande importância aos falantes. É tarefa de grande eficácia em sala de aula, ainda mais quando os estudantes têm dificuldade em encontrar palavras para traduzir seus pensamentos. Importante, também, é o estudo da significação dessas palavras. Esse aprendizado pode se tornar tarefa interessantíssima se o professor conduzi-la de maneira aprazível, levando os alunos à compreensão que o mundo da linguagem se organiza por campos lexicais ou campos semânticos [conceituais]. Todo esse estudo pertence à ciência Semântica, cujo objeto de investigação é a significação ou significado das palavras.
      Por não estarem devidamente diferenciados ou definidos, os conceitos de campo semântico e campo lexical frequentemente são confundidos. Tanto o campo semântico quanto o campo lexical são utilizados pela linguística textual a fim do melhor e mais adequado uso das palavras da língua portuguesa. Para entendê-los melhor trazemos alguns esclarecimentos e algumas conceituações:

    Léxico é o conjunto de palavras pertencentes à determinada língua. Por exemplo, temos um léxico da língua portuguesa que é o conjunto de todas as palavras que são compreensíveis em nossa língua. Quando essas palavras são materializadas em um texto, oral ou escrito, são chamadas de vocabulário. O conjunto de palavras utilizadas por um indivíduo, portanto, constituem o seu vocabulário.
      O campo lexical, por sua vez, é o conjunto de palavras que pertencem a uma mesma área de conhecimento, e está dentro do léxico de alguma língua.
      São exemplos de campos lexicais:

- campo lexical da medicina: estetoscópio, cirurgia, esterilização, medicação, etc.
- campo lexical da escola: livros, disciplinas, biblioteca, material escolar, etc.
- campo lexical da informática: software, hardware, programas, sites, internet, etc.
- campo lexical do teatro: expressão, palco, figurino, maquiagem, atuação, etc.
- campo lexical dos sentimentos: amor, tristeza, ódio, carinho, saudade, etc.
- campo lexical das relações inter-pessoais: amigos, parentes, família, colegas de trabalho, etc.

      O campo semântico, por sua vez, é o conjunto de possibilidades que uma mesma palavra ou conceito tem de ser empregada(o) em diversos contextos. O conceito de campo semântico está ligado ao conceito de polissemia. Uma mesma palavra pode tomar vários significados diferentes em um mesmo texto, dependendo de como ela for empregada.
São exemplos de campos semânticos:

* Campo semântico em torno do conceito de morte: bater as botas, falecer, ir dessa para a melhor, passar para um plano superior, falecer, apagar, etc.
* Campo semântico em torno do conceito de enganar: trapacear, engabelar, fazer de bobo, vacilar, etc.

      Considera-se importante, no conhecimento de qualquer idioma do mundo, o domínio do vocabulário por parte do falante. Quanto mais palavras conhecer maior será a eficácia da sua linguagem, concebida como forma de interação. Assim, o conjunto de vocábulos que possuímos apresenta um valor referencial, um valor contextual e um valor pragmático [uso]. Por isso, a significação de um vocábulo é importante para a compreensão de qualquer mensagem.

      Finalizando, diz-se ser importante ao falante perceber como um texto se constrói, como os vocábulos se organizam. É uma aventura, em qualquer texto, compreender os sentidos ou significados das palavras e saber que a base desses textos – orais ou escritos – é o vocabulário. Sem o vocabulário não se diz nada e também não se compreende nada. É o silêncio.      

DICAS DE GRAMÁTICA

DEVE-SE ESCREVER O SARGENTO MARIA OU A SARGENTO MARIA?

- Existem na língua portuguesa as formas femininas soldada, sargenta, coronela, capitã, generala. No entanto, como as Forças Armadas resolveram não adotá-las, preferindo empregar o nome do posto tanto para os homens como para as mulheres (até porque alguns ficariam estranhos, como ‘a tenenta’, e outros nem feminino teriam, como ‘major’ e ‘cabo’), a única diferenciação fica sendo o artigo:

· A soldado Camila, a sargento Maria e a coronel Anny Rose serão promovidas.

· Parece que uma tenente foi desacatada.

· O coronel Gomes passou as instruções a capitão Marli Regina.

Fora da hierarquia militar, no caso particular de capitão, pode-se dizer que é correto – existe esse registro em alguns dicionários – falar em "capitoa", mas é preferível usar o feminino capitã, palavra, aliás, bastante em voga, pois designa também o "chefe, a pessoa que comanda, que dirige" ou "atleta que representa a equipe":

· Na nossa gincana foi atribuído um prêmio as capitãs das cinco equipes.

· Rosilda, capitã da PMAC por muitos anos, abandonou o torneio repentinamente.

É CORRRETO DIZER “EU EXPLUDO”?

- Sim, perfeitamente correto. EXPLODIR não é verbo defectivo em si. Ele é conjugado conforme o verbo dormir, segundo dicionários especializados. Portanto, pode-se dizer "ele explode, eu expludo, ele que expluda o balão”. No Brasil, depois que o ex-presidente Figueiredo falou (corretamente) "expludo", criou-se o estigma e a má reputação do verbo, como se ele devesse ter explodido de outra forma: "Ele que se exploda!"

domingo, 2 de junho de 2013

A PRESENÇA ITALIANA NA LÍNGUA PORTUGUESA

 

Luísa Galvão Lessa colunaletras@yahoo.com.br

Uma língua viva, falada, recebe, naturalmente, influências de outras culturas. E, em artigos anteriores, falou-se da herança de outros povos na formação da língua portuguesa. Comentaram-se as influências: francesa, inglesa, espanhola, árabe, tupi, africana, grega. O texto de hoje contribui na compreensão da herança italiana na língua portuguesa.

É fato que o léxico de uma língua é formado por palavras vindas de vários lugares, e que isso depende do contato que os povos tiveram entre si. No português, temos palavras germânicas, árabes, francesas, italianas, japonesas, chinesas, só para ilustrar alguns legados, e nós as aprendemos quando precisamos usar. Por isso qualquer pessoa que entra num shopping center assimila o que é 50% off' (desconto de 50%) e isso não impede a comunicação.

O Brasil, em final do século XIX, recebeu levas de imigrantes de todos os cantos do planeta, mas nenhum influenciou tanto a cidade de São Paulo quanto os italianos.Eles vieram para a lavoura do café a partir de 1877 e faziam a rota contrária: do interior para a capital de São Paulo. Tanto foi assim que já no começo do século XX constituíam praticamente a metade da população da cidade e da mistura da língua italiana com o português criaram aquilo que se chamou de “língua brasileira”.

As influências estão presentes em toda parte, na culinária, na passionalidade, no vestir, na educação, nas expressões, na música, na ciência e nas artes. Das correntes de imigração, os italianos só perderam, no final do século XIX, para os portugueses... nossos descobridores.

O brasileiro é conhecido por gostar do tradicional arroz e feijão e, também, por apreciar um prato de massa. Assim é que muitas palavras da culinária italiana ingressaram no português de forma definitiva. Dentre elas enumeramos: Lasanha: lazanha/lasanha; Nhoque:enhoque/ nhioque; Espaguete: spaguetti/espaguete/ spaghet; Muçarela: mussarela/musarela/muzzarella; Pizza: piza; Taglierini: talharim/ Ravioli: ravióli; Panetone: panetone.

Algumas dessas palavras são grafadas de forma diferente de um canto ao outro do Brasil, ora com /s/ ora com /z/. Esse comportamento também é notado nos dicionários que registram essas formas aportuguesadas. Lasanha, por exemplo, em italiano se escreve com "s" e "gn", ou seja, "lasagna", e em português com "s" e "nh", "lasanha". Depois, vê-se "nhoque". Em italiano, é "gnocchi", mas, em português, escreve-se com "nh" no começo e "que" no final ("nhoque"). Vê-se também "espaguete", que em italiano se escreve "spaghetti" e vem de "spago", que quer dizer barbante. Há, ainda, a palavra mozarela/muçarela/mozzarella.

Segundo Pacheco Júnior, autor de "Gramática Histórica da Língua Portuguesa", cerca de 300 palavras italianas foram incorporadas ao português falado no Brasil. São exemplos: cantina, caricatura, fiasco, bravata, poltrona, alegro, aquarela, bandolin, camarin, concerto, maestro, piano, serenata, alarme, boletim, carnaval, confete, macarrão, mortadela, salsicha, além, é claro, do "ciao", tranformado em "tchau".

No Brasil, a imigração italiana foi tão forte que, segundo os dados oficiais, pode-se afirmar que de 1870, até hoje, a influência italiana no Brasil chegou a ultrapassar a influência portuguesa, tendo sido registrada a entrada de mais pessoas de nacionalidade italiana (34% do total) que de nacionalidade portuguesa (28%), enquanto que todas as outras nacionalidades juntas (espanhóis, japoneses, alemães, sírios/turcos etc) somam os 38% restantes.

Foi assim que nas comemorações dos 500 anos do Brasil o IBGE apresentou dados oficiais sobre a imigração no país, segundo os quais cerca de 1,5 milhões de italianos escolheram o Brasil como segunda pátria. A maior parte entrou nos Estados de São Paulo, Rio grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Espírito Santo. Esses imigrantes aqui constituíram parte significativa da família brasileira e, por isso mesmo, cada brasileiro carrega consigo, no vocabulário, traços culturais do italiano.

DICAS DE GRAMÁTICA

ESTA E ESTÁ, QUANDO USAR UMA OU OUTRA FORMA, PROFESSORA?

- Professora Toinha, esta caneta que está aqui é sua?

Esta - pronome demonstrativo, pois indica o lugar ou a posição dos seres e objetos em relação à pessoa que fala. 

Está - verbo estar - indica um estado ou qualidade.

Ex.:

a. Esta conversa já está ficando aborrecida.

b. Esta criança já está na escola.

c. Está incomodando esta música?

d. Está disposto a ganhar esta partida?

e. Esta janela está aberta.

HOUVE E OUVE, COMO USÁ-LOS?

Ouve: verbo ouvir, escutar. 

Houve: verbo haver, no sentido de acontecer, existir, sair-se bem ou mal.

Ex.:

a. Fale mais alto. Ele não ouve muito bem.

b. Em 1865 houve uma guerra entre o Brasil e o Paraguai.

c. Fale mais perto e baixinho, senão ela ouve o segredo.

d. Não fique nervoso. Não houve nada de grave.

e. Houve muita confusão no jogo de domingo.

f. Ela só ouve música clássica.

HERANÇA FRANCESA NA LÍNGUA PORTUGUESA

 

Luísa Galvão Lessa Karlberg  - colunaletras@yahoo.com.br

Temos discutido, desde algum tempo, que a língua, um organismo vivo, está sujeita a sofrer modificações, alterações, mudanças no curso do tempo. A língua portuguesa, a exemplo de outras línguas, recebe herança de outros povos e esse legado pode ser apreciado pelas palavras estrangeiras que são incorporadas ao vocabulário português. Falamos, em artigos anteriores, da influência indígena e africana. Hoje falamos da herança francesa tão presente no português, por força das relações políticas, culturais e comerciais.

Houve uma época em que a França serviu, para nós, de modelo cultural. Assim, muitas palavras do idioma de Molière representavam o que de mais chique se podia usar no Brasil. Companhias de teatro francesas se apresentavam no Rio e em São Paulo, para uma aristocracia que importava governantas e contratava professoras particulares para ensinar a língua tão agradável aos seus filhos. Os galicismos - palavras importadas do francês - apareciam nos textos literários e nos jornais, mas naquela época os intelectuais eram mais críticos e escreviam repudiando o modismo. Hoje, tem-se a clara concepção de que esse legado não empobreceu o idioma camoniano, antes o enriqueceu com novas palavras, como <<restaurante>>, <<manchete>>, <<garçon>>, <<vernissage>>, <<écharpe>>, <<tricot>>, <<abajur>>, <<chofer >>, << butique>>,<<laquê>>, <<bisturi>>,<< bureau>>, << buquê>>,<<boné>>, <<toalete>>, << purê>>, <<cabaré>>, <<cabina>>, <<cachecol>>, <<camioneta>>, <<bufete>>, <<buquê>>, <<bulevar>>, <<bidê>>, <<bibelô>>, <<avalanche>>, <<paletó>>, <<pane>>, <<pasteurizar>>, <<pivô>>, <<placar>>, <<plaqueta>>, <<platô>>, <<plissado>>, <<pompom>>, <<pônei>>, <<popelina>>, <<raqueta>>, <<sanotagem>>, <<sabotar>>, <<vitrina>>, <<vagão>>, <<vitral>>, <<vermute>>, <<usina>>, <<usineiro>> etc, que refletem a raiz cultural francesa entre a gente do Brasil.

Depois, lembro as quadrilhas, nas festas juninas, que não são manifestações nascidas na nossa cultura popular. A quadrilha é uma dança européia que, no século XIX, passou para os salões da aristocracia e da classe média do Brasil. Daí compreende-se nela haver palavras francesas que comandam os passos da dança, em toda a movimentação nos salões e, depois, nos espaços campestres no interior do Brasil até se transformar na “dança caipira da roça” tão presente entre nós, nos meses de junho e julho.

Compreende-se, daquilo que aqui se falou, que o vocabulário de uma língua tem o importante papel de revelar o perfil de um povo. Por isso, os vocábulos não são estáticos no seu emprego: transformam-se quanto à significação ou freqüência de uso, quer no decorrer do tempo, quer no lugar em que são usados, quer nas diferentes situações sociais.

Conclui-se, ao final, que o conjunto de vocábulos de uma língua funciona como espelho da cultura dessa língua, tendo, portanto, o papel de revelar interesses, hábitos de alimentação, vestuário, crenças, cultura etc. Portadores desta função - de espelhar, de revelar o perfil do povo que as emprega - os vocábulos não poderiam ser estáticos no seu emprego. Assim, quer no tempo, quer no espaço (país, estado, cidade, bairro, rua, ...), quer nas camadas sociais, quer na situação social em que são usados, os vocábulos se transformam, por exemplo, quanto à sua significação, sua forma, sua freqüência de emprego. Cada língua tem sua individualidade, seu comportamento, sua lógica.

DICAS DE GRAMÁTICA

BANCAS DE JORNAL / BANCAS DE JORNAIS
- As palavras compostas unidas pela preposição DE, pluralizam apenas o primeiro elemento:
Ex.: pés-de-moleque | testas-de-ferro | frutas-do-conde
O mesmo acontece com expressões como:
. bancas de jornal | casas de aluguel | camas de casal
. escovas de dente | casas de massagem | pilhas de rádio.

BASTANTE / BASTANTES
- Bastante pode ser um adjetivo ou um advérbio. Será um adjetivo quando se referir a um substantivo. Caso se refira a outra classe de palavra será advérbio. Quando é um adjetivo, varia, isto é, concorda com o substantivo; quando é advérbio, permanece invariável.
· Estudamos bastante. (advérbio, portanto: invariável, pois se refere ao verbo)
· Tenho bastantes razões para acreditar em ti. (adjetivo, portanto: varia, pois se refere ao substantivo razões).
Truque: Para sabermos usar, basta trocar o bastante por muito. Se o muito variar, o bastante também varia. Se o muito ficar invariável, o bastante também deve ficar.
· As crianças estão bastante alegres. (As crianças estão muito alegres).
· Havia bastantes pessoas no cinema. (Havia muitas pessoas no cinema).

BEM-VINDO / BENVINDO
- Bem- vindo é a forma correta. Bem pede sempre o hífen.
Ex.: Bem-aventurado, bem-querer, bem-amado, bem-te-vi
Benvindo é usado como nome próprio.

DE MODO QUE / DE MANEIRA QUE / DE FORMA QUE
Sempre grafados no singular.
Nunca de modos que, de maneiras que, de formas que.

O LEGADO ÁRABE À LÍNGUA PORTUGUESA

Luísa Galvão Lessa      colunaletras@yahoo.com.br

 

O léxico de uma língua é um sistema in fieri e como tal vive em permanente expansão. No caso específico do léxico da língua portuguesa, como ocorre com outros idiomas do mundo, ele recebe influências de outras culturas - conforme tratamos em artigos anteriores - ora tangido por influência francesa, espanhola, africana, indígena, italiana, alemã, inglesa etc. Hoje falamos do legado árabe à Língua Portuguesa.

A influência árabe foi marcante em todo o sul da Península Ibérica. E, mesmo não havendo imposição religiosa e nem linguística, os árabes, ao conquistarem a Península Ibérica, deixaram marcas profundas no léxico português. Conta-se em centenas os vocábulos árabes, comuns, regionais ou antigos, que o português, antes ainda de merecer este nome, fez seus, adaptando, na medida do possível, os sons da língua semita ao sistema fonológico próprio. Contudo, por muito importante que seja, esta contribuição limita-se, na verdade, quase exclusivamente, a substantivos, sendo virtualmente inexistentes expressões respeitantes às qualidades morais e outras noções abstratas.

Assim, naquilo que toca à significação dos arabismos do português, apontam-se as seguintes categorias semânticas: 1) designações de cargos e dignidades: alcaide, alferes, almoxarife; 2) termos castrenses: arraial, arrebate, alcácer, alcáçova, atalaia; 3) de administração: aldeia, arrabalde, alfoz; alfândega, alvará, almoeda; 4) de plantas cultivadas e silvestres: arroz, algodão, alcachofra, cenoira, laranja, açúcar, alfarroba, alecrim, açucena, alfazema; 5) de profissões e indústrias: alfaiate, alveitar, almocreve, alvanel, algoz, azenha, atafona, adobe; 6) de unidades de medida: almude, arrátel, alqueire, arroba; 7) de animais: atum, alcatraz, alforreca, alacrau, javali, 8) de particularidades topográficas: albufeira, alverca, algar, lezíria, recife; 9) de artigos de luxo e instrumentos de música: almofada, alcatifa, marfim, alfinete, adufe, rabeca, anafil, alaúde; 10) de produtos agrícolas e industriais: azeite, álcool, alcatrão; 11) da vida pastoril: zagal, alfeire, rês, tabefe, almece; 12) de arquitectura: aljube, chafariz, açoteia, alvenaria; 13) das ciências exatas: algarismo, álgebra, cifra, auge, etc. Há, também,, o adjetivo <<azul>>, o pronome indefinido <<fulano>>, a interjeição <<oxalá>>, a preposição <<até>>.

Compreende-se, então, que o léxico de uma língua de civilização, como a língua portuguesa, é extremamente complexo na sua composição, pois resulta de um trabalho multissecular de elaboração e de seleção, cujos princípios se situam bastante para além da época em que o português se manifesta como instrumento literário, nos primeiros documentos escritos. E, como sucede com o léxico das demais línguas de cultura, nunca será possível reconstituir todas as fases do vocabulário português e destrinçar a contribuição das muitas gerações que nele colaboraram até se constituir o magno edifício que hoje enche de orgulho o mundo da lusofonia.

DICAS DE GRAMÁTICA

XÉROX OU XEROX ?

- As duas formas podem ser usadas: se você pronuncia como palavra oxítona, escreva xerox, sem o acento gráfico, a exemplo de outras marcas registradas que se tornaram nomes comuns, como pirex, gumex, perfex, durex etc. A opção é o vocábulo acentuado - xérox - de acordo com a norma ortográfica relativa às paroxítonas terminadas em x, tal qual fênix, ônix, látex e dúplex (também pronunciado duplex).

GRAFIA DUPLA

Quando existem alternativas de pronúncia e escrita, é bobagem ficar corrigindo as pessoas que falam ou escrevem diferente da gente. Deixando a escolha a cada um, vejamos outros casos de dupla grafia ou de uso optativo entre duas formas de se expressar:

· soalho e assoalho

· porcentagem e percentagem

· quatorze e catorze

· quota e cota

· quociente e cociente

· quadriênio e quatriênio

· mestria e maestria

· vitrina e vitrine

· nuança e nuance

· termelétrica e termoelétrica

· hidrelétrica e hidroelétrica

· garçom (pl. garçons) e garção (pl. garções)

· aluguel (pl. aluguéis) e aluguer (pl. alugueres)

· maquiagem e maquilagem

· abdome e abdômen

· germe e gérmen

· humo e húmus

· bile e bílis

· antisséptico e anti-séptico

· infarto e enfarte [mas não * infarte]

· destrinçar e destrinchar

· a maquinaria e o maquinário [mas não * a maquinária]

· aterrissar e aterrizar [formação vinda de ‘aterrar + sufixo izar’, eis uma forma conciliadora para quem prefere a pronúncia com som de z]

· de tarde e à tarde.

· de pé e em pé [no sentido de estar ereto sobre os próprios pés, não sentado nem deitado, enquanto ‘ir a pé’ significa deslocar-se sem veículo algum].

A INFLUÊNCIA ESPANHOLA NO PORTUGUÊS

 

 

Luísa Galvão Lessa colunaletras@yahoo.com.br

 

Falamos, em artigos anteriores, da influência de outras culturas na constituição do vocabulário português. Herdamos palavras latinas, gregas, germânicas, celtas, árabes, francesas, inglesas, africanas, indígenas etc. Hoje, comentamos a contribuição espanhola ao léxico da língua portuguesa.

Antes de tudo é bom dizer que a influência de outras culturas, no idioma português, representa uma riqueza e não um prejuízo como alguns possam acreditar, pois as palavras estrangeiras, de origens diversas, são assimiladas, no curso do tempo, ao ponto dessas formas adquiriram direito de vernaculania, que é, em síntese, a cidadania da palavra.

A língua portuguesa, segundo sua história externa, nasceu no oeste da Península Ibérica, Europa Ocidental, onde estão Portugal e Espanha. Essas terras eram domínio do Império Romano, há mais de 2000 anos. Quando o Império Romano caiu, no século V, a dialetação do latim se intensificou e vários dialetos foram se formando. No caso específico da península, foram línguas como o catalão, o castelhano e o galego-português (falado na faixa ocidental da península) as trilhas que conduziram ao surgimento do português. E foi o galego-português, precisamente, que gerou o português e o galego (mais tarde uma língua falada apenas na região de Galiza, na Espanha).

Entre meados do séc. XV e fins do séc.XVII o espanhol serviu como segunda língua para todos os portugueses cultos. Os casamentos de soberanos portugueses com princesas espanholas tiveram como efeito uma certa “castelhanização“ da corte. Os 60 anos de dominação espanhola acentuaram esta impregnação lingüística. É somente depois de 1640, com a Restauração e a subida ao trono de D. João IV, que se produz uma certa reação antiespanhola. O bilingüismo, todavia, perdura até o desaparecimento dos últimos representantes da geração formada antes de 1640. A maioria dos escritores portugueses escreve também em espanhol, por exemplo: Gil Vicente, Sá de Miranda, Luis de Camões, Francisco Manuel de Melo.

O volume de contribuição do espanhol, ao português, data, essencialmente, da época do predomínio político e literário da Espanha. Alguns dos termos, em causa, situam-se no ambiente cortesão: <<cavalheiro>>, <<lhano>>, <<airoso>>; outros se referem a noções militares: <<cabecilha>>, <<caudilho>>, <<guerrilha>>; outros à terminologia taurina: <<ganadaria>>, <<bandarilha>>, <<muleta>>; outros a costumes e vestuário tipicamente espanhóis: <<tertúlia>>, <<chiste>>, <<boina>>, <<mantilha>>, abstraindo de muitos outros vocábulos, pertencentes a campos semânticos diversos, como <<faina>>, <<trecho>>, <<tijolo>>, <<moçoila>>, <<hediondo>>,<< moreno>> e o próprio étnico castelhano, que usurpou o lugar do ant. castelão. Diga-se, ainda, que existem não poucos castelhanismos perfeitamente integrados na fonética do português e, por isso, difíceis de identificar.

A partir do séc. XVIII o espanhol deixa de desempenhar o papel de segunda língua de cultura, que passa então a ser exercido pelo francês. É nos livros franceses que os portugueses vão buscar boa parte de sua cultura, e é por intermediário dele que entram a maioria das vezes em contato com o mundo exterior. Mas essa nova tendência não apaga da língua camoniana a forte presença espanhola que perdura, na língua portuguesa, até os dias atuais.

DICAS DE GRAMÁTICA

PARA MIM / PARA EU LER

É um hábito muito arraigado no Brasil a fala "disse para mim ir, para mim trabalhar, para mim descansar". Tem uma explicação para isso, quando se considerar que toda língua transplantada é mais arcaizante que a original: no período em que se falava o português arcaico – entre os séculos XII e XVI, justamente quando o Brasil foi descoberto – usava-se o pronome pessoal sujeito pelo pronome complemento e vice-versa. Exemplos apresentados na Gramática Histórica de Ismael de Lima Coutinho (1968: 67): o coração pode mais que mim [em vez de ‘que eu’] e enforcariam ele [‘ele’ no lugar de ‘o’]. E assim usamos até hoje.

- Na verdade, segundo o padrão culto da língua portuguesa, o “mim” não faz nada. Então prefira dizer: Para eu ler, para eu fazer, para eu dizer etc.

  • Entregou o bilhete para mim. – Entregou o bilhete para eu ler depois.
  • Este presente é para mim? – Este presente é para eu embrulhar?
  • O abacaxi é para mim. – O abacaxi é para eu descascar.
  • Fez um pavê para mim. – Fez um pavê para eu experimentar.

ESTÁVAMOS "EM" QUATRO À MESA?

- Em absoluto! O “em” não existe: Estávamos quatro à mesa. Da mesma forma: Éramos seis. Ficamos cinco na sala.

Sentar na mesa/sentar à mesa

Sentou "na" mesa para comer. Sentar-se (ou sentar) “em” e “na” é sentar-se em cima de. Assim, prefira dizer: Sentou-se à mesa para comer. / Sentou ao piano, sentou-se à máquina, sentou-se ao computador.

FEBRE ALTA?

Na verdade, toda febre é temperatura alta. Febre baixa, pelo menos na medicina gramatical, não existe. Outro exemplo: tirar a pressão. Se uma enfermeira tirar a minha pressão sanguínea eu morro na hora. É bem melhor pedir-lhe para medir a pressão.

sábado, 1 de junho de 2013

O BRASIL DAS SUPERSTIÇÕES E CRENDICES

 

Há, entre o povo brasileiro uma mistura singular de superstições e crendices, a ponto de não se saber onde começa a crendice e ou a superstição. E, embora as crenças populares sejam supersticiosas, não se deve confundir superstição com crendice. Por exemplo, acreditar em bruxas, almas penadas, fantasmas, não é superstição. Superstição é quando uma pessoa atribui a certos fatos, ou criaturas, animais ou coisas, poderes maléficos ou benéficos, dependendo de  circunstâncias variáveis. Ex.: encontrar um gato preto não tem importância, mas se ele correr na nossa frente é que dá azar.

As superstições participam da própria essência intelectual humana e não há momento da história do mundo sem sua inevitável presença. A elevação dos padrões de vida, o domínio da máquina, a cidade industrial ou tumultuosa, em sua grandeza assombrosa, são tantos viveiros de superstições, velhas, renovadas e readaptadas às necessidades da vida. Assim, todas as profissões têm o seu “corpus” supersticioso, e aqueles que confessam sua independência absoluta da superstição são porque não chegaram no instante da confidência reveladora.

A superstição é sempre de caráter defensivo, respeitada para evitar mal maior ou distanciar sua efetivação. Os sinais exteriores são os amuletos que, incontáveis, transformam-se em adornos, jóias e vivem na elegância universal dos dias. Essa legítima defesa estende-se às zonas mais íntimas do raciocínio humano e age independente de sua ação e rumo. A própria etimologia latina mostra que superstição é uma sobrevivência em sua preservação: Superstição [Do lat. superstitione.] Sf. 1. Sentimento religioso baseado no temor ou na ignorância, e que induz ao conhecimento de falsos deveres, ao receio de coisas fantásticas e à confiança em coisas ineficazes. Enquanto Crendice,[De crer; formação irreg.] Sf. 1. Crença em presságios tirados de fatos puramente fortuitos; 2. Apego exagerado e/ou infundado a qualquer coisa.

As superstições, como os pecados, podem dar-se por pensamentos, palavras e atos.  Por exemplo: por pensamento – Fazer três pedidos quando se vê uma estrela cadente; por palavras – dizer Isola! Quando alguém se referir a um malefício acontecido a outra pessoa; por atos – levantar da cama com o pé direito para que o dia lhe seja benéfico.

A idéia da superstição é ambivalente, pois existe a crença de que há sempre meios de anular a força positiva ou negativa de qualquer elemento. Se isso acontece, deve-se fazer aquilo para prevenir o mal, ou realizar tais práticas ou trazer objetos especiais. Ex.: Quando a gente encontra ou fala com pessoa que dá azar, convém bater na madeira ou fazer figa com a mão. Daí o apelo a talismãs, amuletos, esconjuros, orações e todo um arsenal supersticioso, muitos dos quais servem não só para nos defender do azar ou mau-olhado, como para projetá-lo nos inimigos ou desafetos, como os espelhinhos dos chapéus dos dançadores de Reisado.

As Crendices podem referir-se às variadas manifestações do folclore espiritual, como: fantasmas, duendes, figuras míticas e assombrações, com também a ritos religiosos católicos ou fetichistas. Ex.: acreditar que Santo Onofre evita a embriaguez ou não deixa faltar dinheiro na carteira; que Santa Bárbara afasta as tempestades; assim como crer em orações fortes, medalhas, rosários, crucifixos, patuás etc. Existem crendices e superstições referentes à natureza: sol, lua, estrelas. Apontar para estrela faz nascer verruga na ponta do dedo. Ou então acerca da água, da chuva, dos ventos ou das nuvens. Ex.: moça que come na panela, chove no dia do casamento. O sol cura tersol.

Existem muitas outras crendices, em meio ao povo brasileiro: jogar moedas para fora de casa à meia-noite atrai riqueza para todos que moram nela; No último dia do ano, é bom fazer uma bela limpeza na casa, varrendo-a de trás para frente. O lixo deve ser colocado para fora, assim como todo e qualquer objeto quebrado. Lâmpadas queimadas precisam ser trocadas. Nada de roupas guardadas do avesso; Usar lençóis limpos, na primeira noite do ano, deixa os possíveis problemas do ano que passou na máquina de lavar; Para acabar com os problemas de coluna, basta colocar na noite de Ano Novo um pedaço de cana, da altura da pessoa, debaixo da cama; Para ter sorte no amor, à meia-noite, você deve, em primeiro lugar, cumprimentar uma pessoa do sexo oposto; Folha do trevo de quatro folhas é sinal de sorte, dinheiro que vai chegar no bolso.

Observa-se que tanto as crendices quanto às superstições se encontram relacionadas com as plantas, animais, fogo, objetos,acontecimentos meteorológicos, enfim, tudo o que nos rodeia. Desse modo, as superstições e as crendices existem tanto em pessoas das esferas populares, quanto nas camadas mais elevadas da sociedade, e quando elas não são consequência do medo, o são de crenças tradicionais, muitas das quais se perdem nas noites dos séculos, derivando, por vezes, de arquétipos milenares.

DICAS DE GRAMÁTICA

FEBRE ALTA EXISTE, PROFESSORA?
- Na medicina gramatical não existe febre alta nem febre baixa. Na verdade, toda febre é temperatura alta. Então basta dizer: Ele não tem febre ou ele tem febre.
A ENFERMEIRA PODE TIRAR A PRESSÃO DO PACIENTE?

- Olha, se ela fizer isso o paciente morre. O que ela deve fazer, seguindo orientação médica, é medir a pressão do paciente.
ENTREGA EM DOMICÍLIO ou ENTREGA A DOMICÍLIO ?

- Entrega em domicílio é o certo, segundo a gramática normativa, porque "entregar não é verbo de movimento" e porque se diz "entrega em casa".
Então está equivocada a propaganda do Supermercado Gonçalves, com entrega a domicílio. Deverá dizer: O Gonçalves entrega em domicílio.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

SAUDADE, SEMPRE SAUDADE!

 

 

Todo mundo, um dia, já sentiu saudade. Saudade de um amigo, dias felizes, de momentos especiais, alegres, engraçados, de uma música, uma palavra ou até um sorriso. Se perguntar: o que é a saudade, friamente falando, fica difícil definir. Saudade é uma sensação tão complexa que nenhuma definição recobriria sua extensão. Tenho em mim que saudade não se define, apenas, com adjetivos ou palavras bonitas. É uma palavra cujo sentido vai além de descrições feitas pelos grandes mestres da literatura e da poesia. Pode ser: emoção, felicidade, tristeza, êxtase, alegria, boas lembranças. Somente sente saudades aquela pessoa que vive; saudades de amigos que se mudaram para outras cidades, vilas, países; saudades da infância que não volta mais; saudades de bons momentos que a gente viveu; saudades de pessoas que a gente ama; saudades de um sorriso, de um olhar, de um sussurro no ouvido; saudades de sentir saudades; saudade, sem motivo, somente saudade.

Por isso tudo eu acredito que sentir saudades é sinal de sorte. Isso porque SAUDADE é um indicativo de coisa que faz bem, de vida que deixa marcas, de gente que vai e gente que fica. Saudade é o passado presente. É o que foi e ainda está tão em nós, latejando, queimando, doendo.

Eu, por exemplo, sinto saudade das pegadas que vejo no caminho atrás de mim. Do caminho, da caminhada, dos caminhantes. Saudade da exceção e do comum. De momentos cotidianos, dos “bom dia”, do ‘até breve”, de conversas banais com pessoas que não foram simplesmente pessoas. Saudades de dias que pareciam não ter fim, de noites que pareciam não amanhecer, de tempos vestidos de eternidade. E que passaram, não voltam jamais.

Também sinto saudade do presente. De pessoas que ainda vejo, de cheiros que ainda sinto, de vozes que ainda falam em meus ouvidos. Saudade antecipada daquilo que me fará falta, deixará lacuna. Sinto saudade de momentos quando percebo que eles irão passar, assim como a vida que nasce e renasce a cada instante dentro do coração. Saudade da brisa, do luar, do som da chuva, do canto dos pássaros, das pegadas na rua, das vibrações do coração contente, feliz.

Sinto saudade do horizonte futuro. De tudo que, por mais que eu viva e me entregue, jamais será vivido o suficiente para me satisfazer e não me deixar com gosto de quero mais. Sinto saudade de tempos que virão e, como todos os tempos que vieram (e um dia também foram conjugados no futuro), também passarão.

Sim, sentir saudades é sinal de sorte, mas também deve ser, certamente, sinal de que algo corre pelas veias (algo que não é apenas sangue). Deve ser indicativo de que a vida não está passando alheia, desavisada, sem por que. Saudades é sinal de que vida está com razão de ser, de que o outro está valendo a pena, de que a gente está vivo, lembrando, sangrando e esperando o próximo encontro, o próximo abraço apertado, o próximo momento para sentir saudade.

Se pudesse escolher, eu gostaria, sim, de sentir saudade, sempre. Desejo que cada dia vivido me deixe marcas inesquecíveis, doa-me no futuro, faça-me sofrer. Às vezes, a dor não é dor, a dor é amor – e por isso dói tanto. Quero ter a sorte de encontrar gente que me cative a ponto de deixar marcas, de viver uma vida que me deixe com vontade de viver mais, de passar por tempos intensos, que acabem no exato momento em que tiverem que acabar, mas que permanecerão comigo, no correr da vida, como uma eterna saudade. Quero as saudades, porque são elas que me fazem crer que viver vale a pena.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

ALFORRIAR-SE DA DOR DA SEPARAÇÃO

 

Os cientistas, em todo o mundo, têm avaliado o grau de intensidade das dores humanas. Há artigos interessantes que abordam o tema sob diversas óticas. Mas, aqui, neste breve texto, fala-se da dor da separação, da dor do abandono. Essa temática da separação amorosa desperta, na maioria das vezes, grande interesse e curiosidade, uma vez que muita gente já sofreu a dor de uma perda amorosa.

Esse sofrimento repercute de maneira diferenciada na vida de cada indivíduo.A verdade, afirmam os estudiosos, a separação entre um casal machuca tanto que, na escala das causas de estresse, vem imediatamente após a morte de uma pessoa significativa. Quando o vínculo amoroso é rompido, torna-se necessário um trabalho interior intenso – por vezes com auxílio de especialistas -- para a pessoa poder recuperar a autoestima, a energia psíquica, o equilíbrio emocional perdido. Isso porque o ser abandonado passa a viver uma espécie de “luto”. Freud (in Nasio,1997) diz que a dor da separação é psíquica, por isso mesmo terrível. A separação repercute na consciência humana como a morte em seu sentido literal.

Asseguram os estudiosos que a dor do abandono é uma das piores pelas quais um ser humano pode passar. Essa dor, segundo Caruso (1981) funciona como uma “eclosão da morte psíquica na vida dos seres humanos”. É isso que acontece com o fim de um relacionamento amoroso. Não é à toa que essa fase também é chamada de “luto”. Afinal, é a morte da idealização do amor eterno. Mas a vida também ensina que o ser humano cresce na adversidade. Toda dor um dia passa e essa cura fortalece a pessoa humana para superar os desafios do mundo.

Para Freud, respeitar o tempo de “luto” é essencial para trabalhar os sentimentos que afloram durante essa fase repleta de frustração, tristeza, raiva, desilusão, desengano etc. O fim desse processo é a aceitação do fato, momento em que a pessoa começa a entender que o relacionamento acabou, nunca mais vai voltar. Chegou ao fim. Mas até a pessoa alcançar esse estágio passará por grandes dificuldades: choro, dor, solidão, desespero, angústia dentre tantas outras. Todavia é preciso vencer, avançar, tirar boas lições da experiência vivida. Ninguém pode ser feliz ao lado de alguém que não tem amor para oferecer.

O fato é que esse “ furacão emocional” que homens e mulheres experimentam, após o fim de uma relação, foi batizado por especialistas norte-americanos de "síndrome do estresse da separação". A socióloga Hui Liu, pesquisadora da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, analisou entrevistas concedidas por 1.282 homens e mulheres, entre 25 e 83 anos, por um período de 15 anos. Em março de 2012, o estudo revelou que aqueles que viveram a experiência da separação tiveram mais problemas de saúde do que os que permaneceram casados, numa união estável, feliz.

Outro estudo também mostrou que o estresse psicológico aumenta o dano causado pelos radicais livres – moléculas instáveis que atacam células saudáveis e são, em parte, responsáveis por doenças como o câncer. Em uma pesquisa com mais de 10.800 mulheres, publicada em 2002 no American Journal of Epidemiology, descobriu-se que o estresse causado por eventos traumáticos como a separação, o abandono, poderiam estar associados ao aumento do risco de câncer de mama.

Como se disse, há muitos estudos nessa área. E sobre a dor de separação ou dor de abandono, ou dor de amor, dizem haver dois tipos: O primeiro é quando a relação termina e a pessoa, seguindo amando, tem que se acostumar com a ausência do outro, com a sensação de perda, de rejeição e com a falta de perspectiva,
considerando estar tão envolvida que não consegue avistar uma luz no fim do túnel.
O segundo tipo de dor é quando a pessoa começa a vislumbrar a luz no fim do túnel. A mais dilacerante é a dor física da falta de beijos e abraços, a dor de sentir-se nada importante para o ser amado. Mas quando esta dor passa nasce um outro ritual de despedida: a dor de abandonar o amor que se sentia. É a dor de esvaziar o coração, de remover a saudade, de ficar livre, sem sentimento especial por aquela pessoa. Dói também...

A dor de esvaziar o coração é grande. Isso por que a pessoa se apega tanto ao Amor quanto á pessoa que o inspirou. Aí muita gente reclama por não conseguir esquecer certo alguém. Na verdade, aquele amor não retribuído tornou-se uma espécie de “souvenir”, lembrança de uma época bonita que foi vivida pelos dois. Assim, passa a ter um valor inestimável, é uma sensação pela qual a pessoa se apega em suas recordações, fazendo parte do seu ser, sua memória.

A partir das reflexões propostas pelo psicanalista Igor Caruso, pude-se perceber que a separação funciona como uma espécie de morte psíquica na vida dos seres humanos. E para que o apaixonado sobreviva a essa dor, é necessário que mate em sua consciência aquele outro que ainda vive. Porém, esta é uma tarefa que também ocasiona muito sofrimento pois, além de ter que fazer morrer o outro em sua consciência, o apaixonado terá que lidar com sua própria morte na consciência do outro. Deste modo, ao matar o Ego do outro, o próprio Ego também morrerá. É um processo difícil e doído.

Logicamente, para voltar a ser livre, disponível para outro amor, é preciso despir-se do “souvenir”, abrir mão de algo que foi importante, por muito tempo, mas que acabou. Então, é preciso romper com as lembranças, os apegos, alforriar-se, ficar disponível para um novo amor. A vida é um constante recomeço, assim como o raiar de cada dia. Quando menos a pessoa espera surge um novo e bonito amor. E a vida segue sempre linda, a depender do olhar que se faz para dentro de si. Ser amado é bom, importante, mas se amar, se gostar é muito melhor. Assim, é bom purificar a alma e o coração antes que o amor entre neles, isso porque, segundo o sábio Pitágoras (matemático e filósofo grego), “ até o mel mais doce azeda num recipiente sujo”. Finalizando acredito que o grande passo é investir em si mesmo, procurar, sempre, ser feliz.

DICAS DE GRAMÁTICA

A MAIORIA DAS PESSOAS SABEM OU SABE?

- Quando o sujeito for representado por um termo COLETIVO ou PARTITIVO for seguido de expressão preposicionada no plural, teremos duas possibilidades de concordância: A gramatical ou lógica, e a ATRATIVA.

Ex.1: A maioria das pessoas SABE. (concorda com o núcleo “maioria”) – no singular. Essa é mais aceitável pela norma culta. É gramatical ou lógica.

Ex.2: A maioria das pessoas SABEM. (concorda com o termo mais próximo no plural) É a concordância ATRATIVA - mais popular, coloquial – vista como forma secundária.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Encanto e magia que envolvem o Canadá

 

 

A natureza humana é permeada de sonhos, encantos, paixões. Natural, pois, a minha vocação por outro país. Amo o Brasil e adoro o Canadá. Aqui vi, de perto, um dos lugares mais lindos do mundo: Montreal. O Canadá, todinho, é um encanto. Um país acolhedor, abriga pessoas de todas as raças do mundo. Talvez por isso eu me sinta, aqui, em casa. Depois, esta terra é muito próspera, segura, terna, morna no carinho das pessoas.

A palavra Canadá deriva de “k'anata”, que significa “pequena povoação” ou “a vila” no idioma indígena – provavelmente o algonquino. O Canadá é o segundo maior país do mundo em área territorial, ficando atrás apenas da Rússia.

A América do Norte é formada por três países: México, Estados Unidos e Canadá. O detalhe é que o Canadá ocupa 41% dessa parte do continente americano, ou seja praticamente a metade da América do Norte. A fronteira do Canadá com os Estados Unidos é a mais longa fronteira terrestre do mundo. O Canadá é o país que possui o maior número de lagos de água doce do planeta. São milhares de lagos, em todo o território. Só para se ter uma ideia, a província de Ontário possui nada mais nada menos do que 25.000 lagos.

O país tem dois climas: temperado e ártico. Os invernos costumam ser bastante frios, com nevascas e temperaturas abaixo de zero. Em Toronto, a temperatura pode chegar a 40ºC no verão e a -33ºC no inverno, uma diferença de mais de 70ºC. O país integra o G8, grupo dos países mais ricos do mundo. Possui uma monarquia constitucional com sistema parlamentarista. Ou seja, a chefia do Estado é exercida por um monarca e a do governo por um primeiro-ministro. O Canadá possui dois idiomas oficiais, o inglês e o francês. Cada província tem o direito de definir o seu idioma oficial. O francês é falado majoritariamente em Quebec, enquanto Nova Brunswick é bilíngue. As demais províncias falam principalmente o inglês. Como país é bilíngue, qualquer produto à venda nos supermercados e lojas de conveniência possui informações nas duas línguas.

O país também possui dois hinos oficiais: o hino nacional (O Canadá) e o hino real (God Save the Queen). Agora a pergunta: se o Canadá é uma monarquia constitucional e tem o hino God Save the Queen como oficial, quem é o monarca? Resposta: a Rainha Elizabeth II, do Reino Unido.

As províncias do Canadá são Yukon, Nortwest Territories, Nunavut, Manitoba, Colúmbia Britânica, Alberta, Sakatchewan, Manitoba, Ontario, Quebec, Nova Brunswick, Labrador e Nova Escócia.Por volta de 60% da população canadense vive na região dos Grandes Lagos e do Vale do Rio São Lourenço, no Leste do país. As cidades mais populosas: Toronto, Montreal, Vancouver, Ottawa, Calgary, Edmonton, Quebec, Winnipeg, Hamilton e London. A região metropolina de Toronto, na província de Ontário, possui mais de 5 milhões de habitantes.

A maior parte da população canadense é cristã, sendo metade católica e metade protestante. Quase 20% da população nasceu no estrangeiro, o que faz do Canadá um dos países com maior percentual de imigrantes do mundo. O país possui um dos mais altos índices de desenvolvimento humano. Vancouver é a cidade 3º com melhor padrão de vida, eleita também a “cidade mais habitável” do planeta. O Canadá é um dos países que tem o maior número de automóveis por pessoa, praticamente um carro para cada duas pessoas.

Chamada de Maple Leaf Flag, a bandeira do Canadá possui duas barras verticais vermelhas representando os oceanos Pacífico e Atlântico e uma folha de bordo no centro, representando o país. O bordo é uma árvore típica do Hemisfério Norte, encontrada na Ásia, Europa e América do Norte. A folha do bordo muda de cor ou cai conforme a estação do ano. Da seiva da árvore é extraído o xarope de bordo (maple syrup), muito consumido no Canadá e Estados Unidos com sorvetes, rabanadas, torradas e panquecas.

Montreal, na província de Quebec, é uma cidade quase que totalmente ligada por túneis. Essa bela cidade possui a mais extensa rede de túneis do mundo. É possível ir ao shopping, ao escritório ou escola sem sair ao ar livre. O motivo está nos invernos com temperaturas normalmente abaixo de zero. Muito frio, muita neve.

Estima-se que 500.000 pessoas circulem todos os dias pelos túneis de Montreal. É uma delícia andar pela cidade, tudo é acolhedor, agradável. As mulheres representam 45% da mão de obra canadense. Elas ocupam quase todas as posições, de motorista de caminhão a presidente de empresa, de pedreira a advogada. Sinal de que no Canadá, a igualdade entre os sexos é levada a sério.

Não existe uma cozinha típica, ou muito menos pratos nacionais canadenses. A cozinha varia de região para região. Mas pode-se dizer que boa parte da população aprecia maple syrup, rosquinha, arroz selvagem, peixes (principalmente o salmão) e frutos do mar.

De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), o Canadá oferece um dos mais altos padrões de qualidade de vida no mundo. Vancouver é considerada a melhor cidade do Canadá para se viver e a 3a. melhor do mundo. O Canadá tem um dos maiores índices de instrução universitária do mundo. Os custos de educação e vida para estudantes estrangeiros no Canadá estão entre os mais baixos. O Canadá é um país multicultural. Em razão de sua diversidade étnica, você se sentirá à vontade no Canadá.

É um país que incentiva a diversidade cultural de sua população. O país conta com redes de TV especializadas em diversidade cultural para quase todos os grupos étnicos existentes no país. É o segundo maior país do mundo, com 9.971,000 quilômetros quadrados de área. Com apenas 3 pessoa por quilômetro quadrado, o Canadá tem a quarta menor densidade demográfica do mundo. É o oitavo maior país comerciante do mundo. É terra de diversas invenções, incluindo basquete, lâmpada elétrica, microscópio de elétrons, televisão, telefone, zíper e outros.

Entre todos os países produtores de gás natural, cobre, zinco, alumínio e ouro, o Canadá está entre os cinco maiores. O Canadá é o quinto maior produtor de energia do mundo.

Os canadenses gostam de esportes principalmente dos esportes de inverno. A paixão nacional é o Hockey no gelo seguido do baseball, basquete e do futebol (estilo futebol americano).

O Canadá é um país privilegiado de extensão territorial e de terras férteis. Ademais, o país conta com uma excelente rede de transportes, o que facilita a comunicação entre todas as províncias, bem como o desenvolvimento do turismo e do comércio nacional.

Somado a esse conjunto de beleza natural, desenvolvimento tecnológico, qualidade de vida, 32% dos canadenses são muito felizes e, 55% são felizes. Ou seja, apenas 13% da população não se considera feliz. Isso não é nada quando se compara esse índice ao de outros países. Por tudo isso eu adoro o Canadá e desejo passar grande parte da minha vida aqui. Tenho sintonia, intimidade com o lugar. Sinto existir um passado espiritual que me liga a esta bela terra onde integro os 55% das pessoas felizes.

terça-feira, 5 de março de 2013

À PROCURA DA FELICIDADE

 

 

A busca da felicidade é o combustível que move a humanidade. É ela que nos força a estudar, trabalhar, ter fé, construir casas, realizar sonhos, juntar dinheiro, gastar dinheiro, fazer amigos, brigar, casar, separar, ter filhos e depois protegê-los. A busca da felicidade nos convence de que cada uma dessas conquistas é a coisa mais importante do mundo e nos dá disposição para lutar sempre por elas. Porém, a cada uma dessas vitórias surge uma nova necessidade. Assim, muitas vezes, o ser humano caminha numa busca incessante, num círculo, numa eterna procura que pode conduzir à solidão.

É fato que todas as pessoas desejam ser felizes. Agora são poucas aquelas que procuram motivos e se esforçam para alcançar a felicidade. Pouca gente percebe que a felicidade está na medida de harmonia que o ser humano pode manifestar a si mesmo, aos outros e ao ambiente no qual vive. Muitas pessoas fazem diversos cursos, leem livros de autoajuda ou esotéricos e não se dão conta de que a procura da felicidade é, antes de tudo, uma jornada ao mundo interior, ao encontro consigo. Não é dinheiro ou prazer, antes uma viagem ao mundo interior na descoberta da própria alma, do encontro do “eu”.

Estudar é bom, traz maiores conhecimentos, mas não é suficiente para trazer a felicidade. Quando alguém se propõe a exercitar uma profissão é preciso aprender e colocar em prática o que foi ensinado pela vida. Enquanto não se utilizam as ferramentas transmitidas pela vida, apreendidas pelo amor ou pela dor, a pessoa vai continuar a rodar em círculos, tentando encontrar a felicidade fora do seu eu, reclamando da vida, culpando os outros, o mundo, quando a culpa é pessoal. É preciso olhar o espelho da alma e descortinar a verdade lá escondida

E, nessa direção, há tanta gente fazendo um esforço grandioso para demonstrar felicidade aos outros e sofrendo por dentro uma dor de ansiedade, de busca acelerada, de perda, de fingimento, até mesmo de conformismo. Para essas pessoas, na verdade, a felicidade está se tornando um peso, uma fonte terrível de desculpas: foi isso, foi aquilo, foi ele, foi ela etc. Por isso, a busca pela felicidade deixa tanta gente estressada, insatisfeita, triste, infeliz, mal-humorada. E o pior, faz tantos mentirosos!

Curioso notar é que sendo a felicidade o sonho humano mais acalentado, o assunto sempre foi desprezado pelos cientistas. Somente na última década um número cada vez maior deles -- alguns influenciados pelas ideias de religiosos e filósofos -- tem se esforçado para decifrar os segredos da felicidade. A ideia é finalmente desmascarar esse truque da natureza. Entender o que nos torna mais ou menos felizes e qual é a forma ideal de lidar com a ansiedade que essa busca infinita causa em cada pessoa.

O psicólogo americano Martin Seligman (2002), da Universidade da Pensilvânia, concluiu que felicidade é, na verdade, a soma de três coisas diferentes: prazer, engajamento e significado. O prazer é aquela sensação que costuma tomar nossos corpos quando dançamos ao embalo de uma boa música, ouvimos uma piada engraçada, conversamos com um bom amigo, namoramos, comemos chocolate etc. Um jeito fácil de reconhecer se alguém está tendo prazer é procurar em seu rosto um sorriso e um olhar brilhante. Já engajamento é a profundidade de envolvimento entre a pessoa e a vida. Uma pessoa engajada está absorvida pelo que faz, participa ativamente da vida e dá sentido ao que faz. E, finalmente, significado é a sensação de que a nossa vida faz parte de algo maior, um mundo complexo e grandioso que é preciso compreender e conviver bem com ele.

Pelas leituras empreendidas, compreende-se que a vantagem da ciência em concentrar a felicidade em três aspectos é facilitar os objetivos do viver humano. Há pessoas que buscam somente o prazer, outras o engajamento, e outras o significado ou sentido da vida. Juntar as três coisas é fundamental para encontrar a resposta do que seja a felicidade e sentir, plenamente, o sentido do viver. A vida é um bem único para cada ser, não há reprise. Assim, é lamentável desperdiçar a vida pelo apego às palavras que só atrapalham, como dizia Clarice Lispector.

Retomando aos pilares da felicidade, diz o cientista Martin Seligman (2001) que um dos maiores erros das sociedades ocidentais contemporâneas é concentrar a busca da felicidade em apenas um dos três pilares, esquecendo os outros. E, geralmente, as pessoas escolhem o mais fraco pilar: o prazer. Depois que o encontram vem o vazio, o frio, o abandono, a ansiedade, a tristeza, a melancolia, o desengano, a pouca fé, o esmorecimento, a perda de coragem para lutar, seguir adiante. Vem a fragilidade que conduz à acomodação de seguir um dia após o outro, sem nada fazer por si, desejando que alguém lhe faça tudo, que Deus opere o milagre.

Mihaly Csikszentmihalyi (2002), pesquisador da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, estuda um fenômeno cerebral chamado "fluxo", que ocorre quando o engajamento numa atividade torna-se tão intenso que dá aquela sensação boa de estar completamente absorto, a ponto de a pessoa esquecer-se do mundo, perder a noção do tempo. Ou seja, é um estado de alegria quase perfeita. Isso é bom, é felicidade.

O pesquisador americano Richard Davidson (a felicidade está de volta, 2000), da Universidade de Wisconsin, observou, em laboratório, que as pessoas em estado de fluxo ativam uma região do cérebro chamada córtex pré-frontal esquerdo, o que pode ter uma série de efeitos no organismo, inclusive um melhor funcionamento do sistema imunológico. Ao longo de um estudo realizado na Holanda, pessoas que entraram em fluxo tiveram seu risco de morte reduzido em 50%, por reagirem melhor a doenças.

Quanto ao terceiro pilar da felicidade, o significado, o jeito tradicional de conquistá-lo é, segundo estudiosos, via religião. Há milênios, a humanidade encontra alento na crença de que cada ser humano faz parte de uma ordem maior. Pesquisas mostram que pessoas religiosas consideram-se, na média, mais felizes que as não religiosas. Elas também têm menos depressão, menos ansiedade e suicidam-se menos. A crença de que Deus observa seus filhos, nas palavras do psicólogo e estudioso da religião Michael McCullough (1996), da Universidade de Miami, é um conforto, uma garantia de que, no final, as injustiças serão corrigidas e todos os esforços reconhecidos.

Para concluir, por agora, há uma regra da qual especialista nenhum discorda: ter amigos (e nem precisam ser muitos) ajuda a ser feliz. Amigos contam pontos nos três critérios: trazem, ao mesmo tempo, prazer, engajamento e significado para nossas vidas. E amigos podem ser os filhos, a esposa, o esposo, os familiares e aqueles que entraram no coração por ganhar nosso respeito, nossa confiança, nosso carinho, nosso amor. Por isso verdadeira a frase: um amigo é alguém que sabe a canção do nosso coração e pode cantá-la quando nós tivermos esquecido a letra.

DICAS DE GRAMÁTICA

QUEBROU O ÓCULOS ou QUEBROU OS ÓSCULOS?

- Quebrou os óculos, concordância no plural: os óculos, meus óculos. Da mesma forma: Meus parabéns, meus pêsames, seus ciúmes, nossas férias, felizes núpcias.

VENDEU UM GRAMA DE OURO ou VENDEU UMA GRAMA DE OURO?

- Vendeu um grama de ouro. Grama, peso, é palavra masculina: um grama de ouro, vitamina C de dois gramas. Femininas, por exemplo, são a agravante, a atenuante, a alface, a cal, a grama (= erva, capim) etc.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

AS LÍNGUAS DA AMÉRICA LATINA

 

Luisa Galvão Lessa colunaletras@yahoo.com.br

Muita gente pensa que nos países da América Latina são faladas apenas duas línguas: espanhol e português. Na realidade, há centenas, ainda que grande número delas esteja em risco de extinção. E, segundo The Cambrige Encyclopedia of Language, são faladas, pelo menos, 70 línguas indígenas no México e América Central e cerca de 500 na América do Sul, 170 delas no Brasil.

O castelhano ou espanhol é falado por 62% dos latino-americanos, mas apenas 54% o têm como língua materna. É, ainda, a única língua oficial de 16 dos 21 países latino-americanos. As cinco exceções são: Brasil (português), Haiti (francês), Porto Rico (duas línguas oficiais: espanhol e inglês), Paraguai (espanhol e guarani) e Peru (espanhol, quéchua e aimara).

Do lado latino, há dois países onde não só o castelhano, mais também certas línguas indígenas, têm estatuto oficial: Peru e Paraguai. No Peru, o quéchua e o aimara são reconhecidos como oficiais pela constituição, mas num papel secundário. Na prática, são reconhecidas apenas para serem usadas e ensinadas dentro das respectivas comunidades indígenas. No Paraguai, o guarani é a segunda língua nacional, ensinada em todas as escolas e falada por 60% da população. O espanhol fica, assim, reservado para os contatos mais formais.

No Brasil, 99,9% da população fala o português como língua materna. Isso significa dizer que 34% da população latino-americana fala o português. A língua portuguesa também é falada por brasileiros migrantes na Bolívia e por comunidades de descendentes de portugueses na Venezuela.

Sobre as línguas brasileiras, elas são numerosas, mas o tupi foi a mais importante. Resistiu, como língua geral, até o século XVIII, falado nas áreas ocupadas pelos bandeirantes. Depois, com a chegada da família real, foi perdendo lugar para o português. No entanto, no passado, pelo menos mil línguas indígenas foram faladas por aqui. Hoje há centenas delas em meio a pequenos grupos de índios das selvas, em vias de desaparecimento.

Incluindo os paraguaios, cerca de 34,3 milhões de pessoas (8%) falam línguas ameríndias na América Latina, das quais 21,6 milhões (5%) falam o espanhol. As línguas ameríndias mais difundidas são: quéchua (10 milhões, do Equador à Bolívia); tupi-guarani (3 milhões, principalmente no Paraguai); náhuatl (1 milhão, México central); quiché (1 mihão, Guatemala); aimara (1 milhão, região do lago Titicaca); otomi (500 mil, no México central); cakchiquel (500 mil, Guatemala); maia-iucateca (500 mil, península do Iucatã); mixteca (400 mil, sul do México); zapoteca (400 mil, sul do México); kekchi (400 mil, Guatemala) e mame (350 mil, Guatemala e sul do México). Com exceção do tupi-guarani, todas essas línguas representam sobrevivências das civilizações mexicanas e andinas e são utilizadas quase exclusivamente por índios, na maioria, bilíngües.

No cenário das línguas latino-americanas, em relação aos idiomas europeus, por exemplo, existe um curioso preconceito segundo o qual as línguas indígenas são "afetivas", "sentimentais", ao passo que as línguas européias são "lógicas", "racionais". Isso nada tem a ver com as línguas em si, mas com a forma como são aprendidas e usadas pelos bilíngües. O índio "ladino", -- aquela pessoa que fala uma língua latina, e o mestiço latino-americano -- aprende a língua indígena com a mãe e comunidade de amigos. Ao contrário, uma língua européia é aprendida na escola — um contexto que se pretende tão racional quanto possível — e o bilíngüe aprende a usá-la em ambientes racionais e impessoais, como as repartições públicas, a relação com os superiores, o comércio nas grandes cidades, o uso de ciência e de técnicas não tradicionais.

Para finalizar a reflexão de hoje, sobre as línguas da América Latina, elas podem ser agrupadas em 150 famílias, enquanto que no resto do mundo não foram identificadas mais do que 50 famílias. E, talvez por isso, a maioria dos lingüistas aceita uma classificação segundo a qual as línguas do Velho Mundo e da Oceania podem ser reduzidas a 17. Outros dados, estudos comparativos, análise mais profunda e detalhada, sobre essa questão, devem trazer a lume questões interessantes que, certamente, nós latinos temos particular interesse em conhecer e apreender.

DICAS DE GRAMÁTICA

POR  QUE, PORQUE,  POR  QUÊ, PORQUÊ

1) Por que (separado e sem acento). É usado quando inicia ou introduz uma oração interrogativa. Exemplo: Por que você chegou tarde?

2) Por quê (separado e com acento). É empregado com o acento quando aparece no final de orações interrogativas. Exemplo: Você chegou tarde por quê?

3) Porque (junto e sem acento). Nessa forma é uma conjunção – usado em respostas. Exemplo: Cheguei tarde porque o trânsito está ruim.

4) Porquê (junto e com acento). Nessa forma é um substantivo. Exemplo: Não sei o porquê de tanta ousadia.

ABAIXARAM OS PREÇOS ou BAIXARAM OS PREÇOS?

- Baixar e abaixar são sinônimos em alguns sentidos: 1) tornar mais baixo (baixar ou abaixar a voz); 2) fazer descer (baixar ou abaixar as persianas); 3) reduzir preço (abaixaram ou baixaram os preços). Então uma loja pode baixar ou abaixar os preços. Tanto faz, ganha o consumidor. Todavia, tome cuidado, pois às vezes baixar não se confunde com abaixar: O ministro baixou (expediu) instruções. O doente baixou (internou-se) ao hospital.

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Luisa Galvão Lessa - Pós-Doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montréal, Canadá; Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ; Membro da Academia Brasileira de Filologia; Membro da Academia Acreana de Letras; Professora Nacional Sênior – CAPES..

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

ACREANA RIBEIRINHA CHEGA À TERRA DOS BANDEIRANTES

 

Uma pessoa que nasce em meio à Floresta Amazônica, em lugar longínquo e de difícil acesso, conhece as dificuldades da vida e sabe que as oportunidades são raras. É assim para muita gente que nasce no interior do Acre, precisamente nas cabeceiras do rio Humaitá (afluente do rio Muru, que é afluente do rio Tarauacá). Eu nasci no rio Humaitá, Seringal São Luís. Dali ao município de Tarauacá se leva oito dias de barco, subindo o rio até sua cabeceira. Aprendi a andar e a falar convivendo com indígenas, num lugar isolado do mundo, onde não havia rádio, luz elétrica, geladeira, livros, escola.Um local distante do dito “mundo civilizado”.

Por sorte e felicidade, ao completar seis anos, meus pais me levaram para o Instituto Santa Terezinha, em Cruzeiro do Sul. Ali vivi os dez anos de internato que mudaram a minha vida. Um colégio alemão, com excelente ensino. Sai aos 16 anos para ingressar no Curso de Letras e de Direito da UFAC. Foram anos maravilhosos. Ao término do Curso de Letras, logo passei a integrar o quadro de professores da Universidade Federal do Acre. Depois vieram o Mestrado, o Doutorado, o Pós-Doutorado. Foram muitas Graças que recebi de Deus, assim como força e determinação para passar dias e noites estudando, pesquisando, confrontando teorias e compreendendo suas aplicabilidades.

No ano de 1994, há exatamente 18 anos, à convite do Chiquinho Araújo, então Diretor de Redação do Jornal “A Gazeta”, comecei a escrever uma coluna semanal para o jornal. Creio ter sido uma das primeiras pessoas a escrever um texto por semana no referido periódico. Fiz isso com muita alegria, pois desejava devolver ao Acre um pouco do muito que me ofereceu. Desejava popularizar o ensino da Língua Portuguesa, área de minha formação. Pensava nos jovens pobres como eu, que não podiam comprar livros. Assim, com os meus textos, eles poderiam colecionar aspectos importantes da gramática portuguesa, fazendo recortes do jornal. Afinal muitos estudantes não podem comprar livros, que são produtos caros no Brasil.

De fato, isso funcionou muito bem. Os pais, os avós, tios, tias, passaram a recortar as DICAS DE GRAMÁTICA para passar aos sobrinhos, filhos, netos, amigos, para que se preparassem melhor para o vestibular. Mas eu não poderia fazer tão somente isso, seria cansativo para os leitores. Então trazia, também, um texto motivador e, ao final, as lições de gramática.

As temáticas preferidas sempre estiveram no campo da Língua Portuguesa, a arte de bem escrever. Todavia, às vezes, ficava repetitivo falar sempre sobre o mesmo tema. O objetivo era despertar o interesse pela leitura e também pela gramática. Como professora, sabia que o cotidiano exige conhecimentos variados. Daí passei a falar sobre outros assuntos, os mais diversos: Felicidade, Sonhos, Amizade, Respeito, Ética, Educação, Religião, Fé, Verdade, Dignidade, Humanidade, Escola, Leitura, Ser bom aluno, Ser professor, Ser pai, Ser mãe, Ser Mulher, Casamento, Filhos, Família, Costumes, Vida, O mundo etc. Muitos temas, inúmeros textos.

Escrevi para “O Página 20” uns bons anos. Depois passei a escrever também para o Jornal “Agência Amazônia de Notícias, com sede em Brasília, onde tenho muitos leitores. Depois, em abril de 2011, veio o “Gosto de Ler”, com sede nos Estados Unidos. Ali tenho 190.000 leitores. Nesse meio tempo criei o Blog “Linguagem e Cultura”, onde tenho 130.000 leitores. E em todos esses veículos há um interação escritor/leitor. A recepção sempre foi boa e isso me conduzia a ser mais exigente com o que escrevia. E muitos assuntos brotaram, milhares de leituras para fundamentar os textos, sempre no sentido de bem informar, trazer pensamentos e opiniões coerentes com as leituras e a vida pragmática.

Decorridos esses dezoito anos de trabalho intenso em produzir textos, os mais variados, no 06 de novembro de 2012 recebo uma carta – via e-mail – Pedido nº245/2012 da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, assinada por Beatriz Scavazza, Coordenadora de Gestão de Tecnologias Aplicadas à Educação de São Paulo, onde solicita os diretos autorais de meus textos para integrarem as reformulações dos materiais didáticos do Projeto “São Paulo faz escola”. Diz a carta: “ Os estudos e análises desenvolvidos por professores e agentes educacionais do Estado resultaram na proposta de revisão dos materiais denominados Caderno do Professor e Caderno de Atividades do aluno, que serão reeditados em 2013 e ganharão uma nova edição. (...) Solicitamos a licença de uso dos seus textos por um período de cindo anos , 2013-2017, para fazer parte do conteúdo dos Cadernos que serão distribuídos na rede pública do Estado de São Paulo”.

Repasso esse notícia em respeito e em agradecimento aos jornais: “A Gazeta”, “Página 20”, “Agência Amazônia de Notícias”, “Gosto de Ler”. Esses veículos acreditaram no meu trabalho, deram credibilidade aos meus textos, publicando-os. Aos meu leitores, que sempre me prestigiaram escrevendo e-mails ou dialogando comigo por onde passo.

Agradecimento especial ao Estado de São Paulo, pela honraria em utilizar meus escritos para compor Caderno do Professor e Caderno do Aluno entre 2013-2017. Esse reconhecimento é o prêmio para uma educadora anônima, nascida no interior do Acre, que faz do magistério um sacerdócio. Que Deus seja louvado! Obrigada, Senhor, por essa grandiosa benção a uma filha da Floresta Amazônica, que agora ingressa na terra dos “bandeirantes”.

DICAS DE GRAMÁTICA

OBRIGADO OU OBRIGADA?

- O homem, ao agradecer, deve usar obrigado. Ex. Ele disse obrigado aos alunos.

- A mulher amazônica ribeirinha diz obrigada ao Estado de São Paulo.

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Luísa Galvão Lessa – É Pós-Doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montreal, Canadá; Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ; Membro da Academia Acreana de Letra; Membro da Academia Brasileira de Filologia; Professora Visitante Nacional Sênior – CAPES/UFAC.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

LIBERDADE, INTIMIDADE E CUMPLICIDADE

 

Muita gente fala em intimidade como uma simples relação de amor. Mas intimidade é muito mais que isso, envolve um mundo a dois, requer muita sabedoria, antes de tudo. Intimidade é ler os olhos, os lábios e as mãos de quem está com a gente. Mais do que compartilhar um endereço, é repartir um projeto de vida. Não basta estar disponível, não basta apoiar decisões, acompanhar aos lugares. Intimidade é não precisar ser acionado, intimidade é saber ser dois, viver a dois, dar e receber, sem cobranças. A intimidade deve ser, antes de tudo, um ato do coração.

A cumplicidade envolve escolhas e responsabilidades e o risco é inerente. Onde há risco não existe uma sensação plena de conforto. Por estas razões ao invés de investir ou cair na armadilha de uma intimidade sem limites, é recomendável investir na construção da cumplicidade, por meio da própria intimidade.

A cumplicidade verdadeira nada mais é do que o amadurecimento da intimidade com compromisso de felicidade. É a transformação de um sonho único em um projeto a dois. Isso é a cumplicidade verdadeira, onde o crescimento de um é compartilhado pelo outro. Nada de individualismo. É sonho e vida ea dois.

A intimidade cúmplice garante a autonomia para opinar, orientar e participar de forma sincera das escolhas do outro. E quando se fala em autonomia a responsabilidade surge automaticamente para ambos partilharem  fracassos e glórias, de mãos dadas, olhos nos olhos, dedos entrelaçados.

Intimidade e cumplicidade, numa relação, envolve as ideias, desejos, sonhos de um, do outro ou de ambos e das responsabilidades que estas realizações trazem. Portanto, cabe a cada parte do casal contribuir, orientar, partilhar, ensinar, tornar realidade, discutir problemas, achar soluções que não firam o amor, a individualidade de um e do outro. Portante, para se alcançar cumplicidade é necessário acumular intimidade.

Liberdade, Intimidade e Cumplicidade são palavras-rima que ressonam como letras unidas para compor a sequência que resulta em AMAR verdadeiramente! Assim, Intimidade é  quando nossos limites se relaxam e tocam a fronteira de outra pessoa.

Criar a Cumplicidade é permitir e abrir-se à Intimidade, tocando apenas de leve os limites do outro sem cruzar as barreiras da Liberdade. Isso permite à pessoa estar inteira dentro de um relacionamento onde há espaço para o AMOR crescer. Somente assim acontece a tão sonhada Cumplicidade que eterniza o AMOR!

DICAS DE GRAMÁTICA

 

PASSÍVEL e POSSÍVEL

Possível é o que pode se ou acontecer, que tem a possibilidades de.

Passível tanto significa “sujeito ou suscetível a experimentar sensações e emoções, a ser objeto de certas ações” quanto “sujeito a penas ou sanções”, como multa etc.

Nada é possível fora da lei.

Na condição de mães, somos passíveis de saudade e sofrimento.

Meu amigo fez concurso para fiscal da receita, mesmo sabendo que nesse cargo ele fica passível de remoção.

O desacato à autoridade é passível de altas penalidades.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Professora acreana contribui com a renovação dos livros didáticos do Estado de São Paulo

 

Trechos da carta da Secretaria de Educação de Educação do Estado de São Paulo (SEE-SP) solicitando os direitos autorais de meus textos para cadernos didáticos de professores e alunos da rede pública: Pedido nº 245/2012, 06 de novembro/ 2012, assinada por Beatriz Scavazza, Coordenadora Executiva/Gestão de Tecnologia Aplicada à Educação." Professora Doutora Luisa Galvão Lessa (…), a Secretaria do Estado de São Paulo (SEE-SP), em continuidade aos esforços visando a melhoria da educação paulista (...) solicita os direitos autorais de seus textos que estão sendo indicados por profissionais da área de educação para fazer parte dos Cadernos que serão confeccionados para alunos e professores para aperfeiçoar as orientações referentes aos materiais de apoio denominadas Caderno do Aluno e Caderno do Professor.(...) Solicitamos a licença de uso do material por um período de 5 anos. As edições serão impressas de 2013 a 2017, sem qualquer finalidade comercial, material que será distribuído gratuitamente às escolas da rede pública do Estado de São Paulo".
Cedi, gratuitamente, com muita honra! Obrigada Senhor DEUS por permitir que contribua, sempre, com a educação do meu país!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

EDUCAR É PREPARAR PARA A VIDA

 

Fala-se muito em educação para o sucesso, todavia é mais importante ser feliz do que bem-sucedido. Embora a realização seja fundamental, quando chega sem felicidade é a pior forma de fracasso. Muitos pais querem definir para os filhos o que significa sucesso: ser empresário, ser arquiteto, tornar-se médico, advogado, economista, juiz, engenheiro etc. Mas isso não é tarefa simples, desejar isso aos filhos e conduzi-los a esses caminhos há uma distância abismal.

É preciso, aos pais, saber preparar os filhos para a vida. E prover não é preparar para a vida. É preciso orientar, saber dizer “SIM” e dizer “NÃO” quando necessário. Essas ações exigem coragem, mas, particularmente, AMOR. Quem ama cuida para a vida e não para si.

Ainda, há pais que dizem: “meu filho não cresceu, não amadureceu, não chegou ainda no seu tempo de voar”. Ora, se os pais pensam assim, como pensam esses filhos? Porque vão se esforçar se os próprios pais dizem que não chegou o tempo de alçar voo? Certamente esses filhos NUNCA vão estar preparados para a vida, para os voos solos, os pais não deixam, resolvem e decidem tudo na vida deles. Essas criaturas são proibidas de pensar. Não verdade, esses filhos são castrados pela vontade imperiosa de pais sugadores.

Verdade incontestável é que a superproteção impede que os filhos desenvolvam os meios necessários para se manter sobre as próprias pernas. E uma lição fantástica para esse tipo de pais é ver, 10, 100 vezes o filme "Cinema Paradiso", que ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Foi grande sucesso de bilheteria em muitos países e também no Brasil. Muitas pessoas choram durante o filme, as cenas são lindas, maravilhosas. E uma delas, a melhor de todas, é aquela na qual o velho, que é o pai espiritual e sentimental do rapaz, que lhe ensinou quase tudo o que sabia da vida até então, diz a ele que se prepare para partir do vilarejo rumo à cidade grande: "Vá e não olhe para trás. Não volte nem mesmo se eu te chamar". O pai manda embora o filho adorado e "ordena" a ele que vá procurar seu caminho.

Essa passagem é extremamente comovente – sai de casa aos 6 anos, para um colégio alemão – trás à lembrança a sabedoria de meu pai: “vai, filha, é preciso”! Eu descia do avião, agarrava-me às penas dele, em prantos, e pedia para ficar. Ele, emocionado, olhava firme e insistia: “vai, filha, segue a tua vida, é preciso ler e descobrir o mundo”. Tão criança, à época, não entendia a grandiosa mensagem, a esplêndida lição de AMOR. Esse homem, meu pai, nutria um amor imensurável por mim ao ponto de querer separar-se para ver-me crescer e aprender a caminhar com as próprias pernas. Morreu com a felicidade e o orgulho de saber que a melhor lição de vida ensinou: ser livre, independente, cortar o fio umbilical, igualmente o rapaz de “Cinema Paradiso”: vá, o futuro te espera, tu deves construí-lo e não eu. Isso, sim, é lição de AMOR!

Hoje a gente pensa que o tempo, a modernidade, mudou o pensamento dos pais. Será mesmo que mudou? Não é essa a impressão. Há avanços, rapazes e moças são mais livres para escolher profissões, namorados, para sair, casar, descasar. Mas não são livres para se comportarem fora dos estreitos padrões dos pais. Como desculpa, os pais dizem: o filho não amadureceu, não cresceu o suficiente, precisa ainda de apoio, ajuda. Na verdade esses pais desejam filhos reféns ad eternun.

De tudo a forma mais sórdida de dominação é aquela que se mascara, traveste-se de grande amor. O filho é tão paparicado que não desenvolve os meios necessários para seu próprio sustento. É um velho dependente de outros velhos. Esses filhos foram carregados no colo o tempo todo e suas pernas ficaram atrofiadas. Não podem andar por seus próprios meios e se tornam dependentes da família para a vida toda.

Pais fracos e inseguros fazem isso porque, na realidade, querem os filhos perto de si, exatamente como se fazia no passado. Querem os filhos por perto para suprir traumas do passado, da infância. Em nome do amor - o que é mentira - geram um parasita, uma criatura dependente. A coisa é mais grave do que era no passado: antes o indivíduo era proibido de partir. Hoje, é permitido que parta, mas ele não tem pernas para isso. Esse é o maior mal que os pais podem causar aos filhos. Eles alcançam a maioridade, 20, 30, 40, 50, 60 anos e ficam às expensas dos pais. E estes, covardemente, dizem: meu filho, minha filha não cresceu, coitadinha, precisa de apoio, proteção.

Que tal mudar de atitude e passar a estimular a autonomia dos filhos ao invés de ficar comprando casa, carro, bancando viagens e todos os caprichos e vaidades? Amar é ensinar a caminhar, dar liberdade, ensinar a conquistar espaço no mundo. Pais assim confundem afeto com superproteção. O AFETO favorece o crescimento.

DICAS DE GRAMÁTICA

O JOGO ACONTECERÁ NO ARENA DA FLORESTA ou O JOGO ACONTECERÁ NA ARENA DA FLORESTA, PROFESSORA?

- Arena da Floresta é o nome de um estádio de futebol. Estádio, sendo palavra masculina, diz-se, então: O jogo acontecerá no Arena da Floresta, ou seja no Estádio Arena da Floresta.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

SOLIDÃO

 

 

A solidão não assusta,
É também companheira,
Que permite reflexão,
Uma coisa altaneira,

Uma realidade que custa.
Solidão faz companhia,
Ajuda a meditar,
Usa pesos e medidas,
Ensina a não julgar,

É singela, madura, energia.
Solidão ensina a amar,
Ajuda a compreender a vida,
Ensina a alma a se curar,
É vizinha do eu na corrida,

Deseja se completar.

Solidão reflete as estrelas

Avista o amanhecer,

Mira os planetas, o alvorecer,

Olha os mares ao anoitecer,

Encontra paz ao adormecer.

 

O que tem o nome de alma

Passa por estados, assim como a solidão,

Vive entre o hoje e o ontem,

Sonha com companhia

Tem destino no coração.

sábado, 17 de novembro de 2012

PAIS TÓXICOS:FILHOS INSUPORTÁVEIS

 

A vida submete os seres humanos a muitas experiências. E, no decorrer do tempo, as pessoas passam por situações difíceis, delicadas. Mas de todas elas, boas ou más, é possível retirar grandes lições. Tenho procurado leituras sobre as relações tóxicas de pais e filhos. Há pouca literatura sobre o assunto. Parece-me, até, que ninguém vive o drama de ver pais reféns de filhos ou filhos reféns de pais. Foi nessa peregrinação, para encontrar algumas respostas, que descobri alguns artigos a apontar uma luz no final do túnel, com conceitos da Psicologia Analítica (JUNG, 2000, § 4, p.16).

Diz o estudo ser possível alguém se divorciar de um cônjuge, por um ponto final no namoro, mas muito difícil conciliar uma relação quando o casal, já de idade, possui filhos tóxicos de outro casamento. Isso ainda fica mais complicado quando uma das partes teve infância difícil, conflituosa com o pai ou com a mãe. A psiquiatria explica que esse ser pai ou mãe, embora tenha alcançado sucesso na vida, não consegue ter boa autoestima. A neura que fica da relação conflituosa que teve na infância com os pais não é fácil superar. Devido é esse trauma oferece ao filho a proteção que nunca recebeu. Essa atitude é uma espécie de compensação a si mesmo. Trata o filho como um “rei no trono”. Cria, assim, uma área de instabilidade com o filho, pelo excesso de proteção, por que deseja que o filho tenha a vida que ele não teve. Assim, há uma castração de liberdade, de ambos, e a relação torna-se doentia. Ambos precisam de tratamento psiquiátrico.

Um comentário sobre o tema do Édipo foge aos propósitos do artigo, mas não se pode deixar de destacar a importância da superação da ligação com o pai para o desenvolvimento psíquico da filha mulher. Hillman (1995, p. 88) diz, “sempre que idealizamos o pai permanecemos filhos, a filha, para tornar-se mulher, precisa desidealizar o pai”. A filha mulher precisa romper a fidelidade incestuosa com o pai para poder se desenvolver como mulher, em sua plenitude, como diz Lima Filho (2002).

Segundo a psiquiatria, os relacionamentos raramente são totalmente bons ou ruins. Muitas vezes os pais são carinhosos; n’outras, carrascos a cobrar aquilo que idealizam para si. Mas nem dessa forma dão solução à vida dos filhos, pois ao tempo que cobram ofertam demais. Esse tipo de pai ou de mãe nutre pelo filho um sentimento de piedade, quando na verdade a piedade é de si mesmo, de sua infância triste, do desamor, abandono que sofreu. E com o excesso de piedade, permanece, rotineiramente, sufocando o filho ao tempo em que dá e cobra, espera e não recebe. Se não educou bem o filho como esperar bom resultado?!

Por isso tudo, numa relação afetiva entre casais, com filhos adultos de outro casamento, romper um laço tóxico é tarefa difícil e rara. Por isso a pessoa que chega esbarra num muro surdo. Toca, toca e não obtém respostas. Há uma muralha a separar afetos, pois trata-se de seres egocêntricos, egoístas, doentios, que olham para si e para si. E como a pessoa que chega não possui laços consanguíneos, ver, claramente, a dubiedade da relação familiar construída pelos traumas, lembranças, mágoas, individualismo, parede de proteção, egocentrismo. Essa pessoa que chega não é competidora de filhos, busca uma relação pura de amor que eles não conhecem. Como não possui os traumas de seu par, sofre a angústia de vê-lo no desgaste eterno doando-se como salvador de uma causa quase perdida.

Judith Lewis Herman, especialista em trauma e professora de psiquiatria da Escola de Medicina de Harvard, afirma que a melhor forma de libertar os filhos é curar os pais doentes. A receita é ensinar aos filhos a forma de se autoprotegerem de pais tóxicos, que se julgam donos dos filhos, querem tomar conta de suas vidas até mesmo quando os filhos passam de 40, 50 anos.

A esperança dos terapeutas é que os pacientes consigam ver o dano psicológico de uma relação prejudicial entre pai e filho. Somente com ajuda médica esses pais e filhos conseguirão mudar esse modelo doentio de relação, que não permite ao pai ou ao filho ser feliz. Ainda mais se chega outra mulher, que passa a ser odiada pela filha do antigo casamento como se fosse usurpadora da felicidade que ali ninguém tem. Todos simulam uma vida exterior pacata, mas o interior está em reviravolta, numa inconstante instabilidade. Nem pai nem filha são felizes, são dois mentirosos que enganem a si e aos outros. Pior de tudo, culpam os outros pelo insucesso que têm.

Em qualquer caso, a atenção e o respeito devem ser dados ao caso. Não deve o filho ou filha provocar uma inversão na ordem da relação do casal. O apoio de um pai, de uma mãe a um filho tóxico, no novo relacionamento, é o pior desserviço que pode prestar. A vida exige ações grandiosas e não atos insanos de egoísmo, baixa-estima, péssimo ensinamento aos filhos.

Os pais precisam colocar limites para os filhos crescerem, não apenas de tamanho, mas em atitudes, respeito aos outros, em especial aquela pessoa que chega na vida do pai ou da mãe, numa nova parceria de afeto, amor, doação. Esse filho é um ser com uma quantidade enorme de energia, que precisa, desde cedo, ser bem canalizada. Essa pessoa precisa aprender a gerenciar essa energia adequadamente e, para tanto, precisa de um enquadramento e um direcionamento que, principalmente, ao pai cabe dar.

Também é importante que pais e mães possam ser amigos de seus filhos, mas, antes de qualquer outra coisa, por amor a eles os pais têm o dever de educá-los, de colocar limites, estabelecer proibições. Os filhos necessitam de pais e mães mais próximos, mas precisam, igualmente, de pais que saibam dizer não, saibam estabelecer limites entre suas vidas e a vida dos filhos.

Para educar um filho não há fórmula ou manual que se possa seguir, pois cada filho e cada pai e mãe são únicos em sua natureza. Todos precisam ser respeitados. As pessoas escolhem com quem vão casar, de quem serão amigos, mas não escolhem os filhos, assim como os filhos não escolhem os pais. De toda forma, é preciso saber conviver com eles. De tudo uma coisa é certa: Educar é também frustrar; é dizer não e contrariar a vontade do filho, quando necessário. Não há como escapar disso, sob pena de o próprio filho sofrer as consequências em sua saúde física e mental. Quem ama cuida bem.

Educar também envolve dizer e ouvir o “não”. Significa ensinar que para cada ato existe uma consequência e para cada regra quebrada, uma punição. Significa mostrar que o mundo não gira ao seu próprio redor. Por mais duro que pareça, aquela negativa ou aquela bronca, que parece ser tão difícil de pronunciar, também é um ato de proteção, um ato de amor. Se amar significa querer fazer o melhor por alguém, que tal criar os filhos para serem pessoas melhores e honradas? Educar para a vida é a maior prova de amor que existe.

Então, é preciso entender que o excesso é prejudicial em todos os sentidos, inclusive o amor sem limites. Educar envolve muito mais do que o instinto de proteção, mas também a dura missão de impor fronteiras entre o novo par que se forma e o dever de respeito dos filhos. Educar é dar o direito ao filho de seguir seu destino, ser dono de sua vida. Educar é deixar claro ao filho que o pai ou a mãe pode constituir nova família. Todo ser humano necessita de um para caminhar pela vida. Pai e mãe não são propriedade de filho, ainda mais filho tóxico.

O pai, sendo portador do Logos, permite ao filho (a) viver a falta instalada na psique, mas também proporciona o desejo de seguir em frente, de forma a atingir o que está faltando para o caminho da independência, da felicidade como ser humano livre. Não há crescimento em um ambiente superprotetor, como destaca Stein (2001, p.34). Seres livres e responsáveis tornam o mundo melhor.

A vida da gente é feita assim: um dia o elogio, no outro a crítica. A arte de analisar o trabalho de alguém é uma tarefa um pouco árdua porque mexe diretamente com o ego do receptor, seja ele leitor crítico ou não crítico. Por isso, espero que os visitantes deste blog LINGUAGEM E CULTURA tenham coerência para discordar ou não das observações que aqui sejam feitas, mas que não deixem de expressar, em hipótese alguma, seus pontos de vista, para que aproveitemos esse espaço, não como um ambiente de “alfinetadas” e “assopradas”, mas de simultâneas, inéditas e inesquecíveis trocas de experiências.