terça-feira, 6 de julho de 2010

POR QUE UMA LÍNGUA MUDA COM O TEMPO?

Relogio1

As pessoas ficam, sempre, a se perguntar por que uma língua não permanece estável no curso da vida? Uma língua muda porque é falada segundo os costumes, a cultura, as tradições, modernização tecnológica e o modo de viver da população. Depois, há para considerar o fator tempo que altera todas as coisas. Assim, não existe razão para que a língua escape a essa lei universal. A língua, igualmente as pessoas, quer palpitar, crescer, tornar-se flexível e colorida, enfim, viver.

A mudança que se observa numa dada língua, no decorrer do tempo, tem paralelo na mudança dos conceitos de vida, na mudança das artes, da filosofia, da ciência e até da própria natureza. Essa evolução temporal, mudança diacrônica ou história, é um dos aspectos mais evidentes da variação ou mudança que se processa em toda e qualquer língua. Antigamente, no Brasil, se falava cutex ao invés de esmalte, petisqueira no lugar de armário, penteadeira ao invés de cômoda, rouge no lugar de blanche, ceroula ao invés de cueca. São exemplos que ilustram a mudança diacrônica ou histórica.

Considera-se, também, que a língua varia no espaço, razão porque a língua portuguesa apresenta variedades nacionais e internacionais. É a mesma língua, mas com traços peculiares das regiões, dos países como Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Angola, Cabo Verde, Timor Leste, Brasil. Nesse campo, ilustram-se diferenças lexicais entre Português do Brasil e o Português de Portugal:

Banheiro

Quarto de banho

Açougue / Açogueiro

Talho / Talhante

Fila

Bicha

Ônibus

Autocarro

Trem

Combóio

Toca-fitas

Leitor de cassetes

Tela (de TV)

Écran

Um "acontecimento" no Brasil...

....é um "facto" em Portugal

Terno

Fato

Menino / garoto

puto

Meias masculinas

Peúgas

Cueca

Boxer

Multa

Coima

"meia"

6 (seis)

Galera

Turma

Embarcação

Galera

Usuário

Utilizador

Xerox

Fotocópia

Assim, as variedades nacionais de um idioma não apresentam uma uniformidade interna, são constituídas por variantes geográficas que os dialectólogos denominam dialetos. Também há as variações decorrentes dos diferentes grupos sociais a que pertencem os falantes, tal como variações de faixa-etária, sócio-culturais e sócio-profissionais. São exemplos de variações por faixa-etária: idoso>coroa>velho; homem>rapaz>tiozinho; baile>festa> balada. São exemplos de variações sócio-culturais: festa>arrasta-pé>piseiro; briga>confusão>furdunço>baixaria>barraco;namorar>ficar; moça> mina> filé. Exemplo de variação sócio-profissional no meio jurídico: Accipiens>credor de boa fé de prestação que não lhe é devida; actio in personam>ação pessoal ou sobre pessoa; ad hoc> Substituição temporária para o caso específico; ad judicia> para o foro em geral, para fins judiciais; ad referendum> na dependência de aprovação de autoridade competente; Caput> Cabeça; Corpus delicti> Corpo de delito.

Dos poucos exemplos que ilustram as mudanças e variações lingüísticas, observa-se ser impossível dar conta de todos os fenômenos de mudança e variação dentro de uma língua. É como diz o linguista Edward Sapir: “não podemos antecipar a deriva (*mudança – grifo nosso) e manter, ao mesmo tempo, nosso espírito de casta”, ou seja, sustentar, em meio à pluralidade social, uma modalidade castiça da língua. Ou dizendo, em outras palavras, manter o purismo lingüístico.

A língua falada e língua escrita também se contrapõem. Diz-se “Me empresta a caneta? Mas, dependendo das circunstâncias, ainda se escreve ”Empresta-me a caneta?”; “Eu lhe conheço” ao invés de “Eu o conheço”; Tem aula hoje? Ao invés de “Há aula hoje?”; “Vou sair” no lugar de “sairei”.

O estudo da língua como um diassistema, abordando todas as variedades, não é apenas importante, mas também indispensável para o conhecimento do idioma. Descrever uma língua, sincronicamente, é apresentá-la diastrática e diatopicamente e proceder à análise de seus fatos. No que diz respeito à Língua Portuguesa do Brasil, essa tarefa pertence àquelas pessoas que elaboram os Atlas Linguísticos até, então, publicados no país e daqueles em andamento, como é a confecção, sob nossa responsabilidade, do Atlas Etnolinguístico do Acre.

DICAS DE GRAMÁTICA

EXISTE MUITAS ESPERANÇAS ou EXISTEM MUITAS ESPERANÇAS NA ELEIÇÃO DE TIÃO VIANNA?

- Existir, bastar, faltar, restar e sobrar admitem normalmente o plural: Existem muitas esperanças. / Bastariam dois dias. / Faltavam poucas peças. / Restaram alguns objetos. / Sobravam idéias. Assim, segundo a norma gramatical: Existem muitas esperanças na eleição de Tião Vianna.

VAMOS ASSISTIR O JOGO ou VAMOS ASSISTIR AO JOGO?

- O verbo assistir como presenciar exige a: Vai assistir ao jogo, à missa, à sessão. Outros verbos com a: A medida não agradou (desagradou) à população. / Eles obedeceram (desobedeceram) aos avisos. / Aspirava ao cargo de diretor. / Pagou ao amigo. / Respondeu à carta. / Sucedeu ao pai. / Visava aos estudantes. Assim, é correto dizer: Vamos assistir ao jogo!

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A vida da gente é feita assim: um dia o elogio, no outro a crítica. A arte de analisar o trabalho de alguém é uma tarefa um pouco árdua porque mexe diretamente com o ego do receptor, seja ele leitor crítico ou não crítico. Por isso, espero que os visitantes deste blog LINGUAGEM E CULTURA tenham coerência para discordar ou não das observações que aqui sejam feitas, mas que não deixem de expressar, em hipótese alguma, seus pontos de vista, para que aproveitemos esse espaço, não como um ambiente de “alfinetadas” e “assopradas”, mas de simultâneas, inéditas e inesquecíveis trocas de experiências.