segunda-feira, 27 de março de 2017

A OBRA POÉTICA “TECIDO DO CORAÇÃO”, DE LUISA KARBERG






A leitura serena de ‘Tecido do Coração’ permitirá ao leitor crítico uma infinidade de inferências. A principal delas, que aprecio, é a íntima relação de caráter existente entre a história de vida da autora e a poesia que nos trouxe a lume. Aqui, a poesia é o sentimento que sobra ao coração e sai pela mão.
Com essa obra poética Luísa Galvão Lessa Karlberg vai dar ao mundo - Tecido do Coração - um singularíssimo livro de poemas, em um lugar onde a poesia normalmente não passa da folha onde foi esboçada, nem seus autores ultrapassam o limite da fronteira municipal. Essa poesia, eu creio, vai ganhar mundo, povoar mentes e corações, semear lições a dizer que a vida é bela quando não se tem medo dela. É como diz Fernando Pessoa: “Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido”, assim sente a autora.
Ainda, diz um adágio que ‘o meio faz o homem’, mas neste caso, foi a inquietude intelectual de uma jovem ribeirinha que triunfou sobre o seu meio hostil, fazendo-a superar limitações, geográficas, financeiras e culturais, para urdir uma vitoriosa história pessoal de vida, aqui expressa, em livro nascido do cultivo humano à herança cultural da poesia.
Sendo menina nascida às margens barrentas do Igarapé Humaitá, Seringal São Luís - localizado às cabeceiras do Rio Muru, distante de Tarauacá oito dias de barco, diria o vulgo tratar-se de mais uma história de personagem comum, sem sonhos ou promessa de expressão. Mas, para o orgulho dos familiares, da sua localidade e de uma plêiade de admiradores, com o mesmo esforço que um dia despendeu para matar a fome alcançando os frutos no alto das árvores gigantes da Amazônia, o poder da vontade de uma acreana idealista deu a Tarauacá, ao Brasil, e ao mundo o que a localidade, a política ou governo algum pode “crear” - o caráter fértil de uma das suas filhas mais veneráveis. Nascida à beira d’água, Luísa Galvão Lessa Karlberg não quis pescar peixes, mas ler muitos livros, cruzar o mundo, conquistar títulos. Assim, respeitada e realizada, intelectualmente, nossa doutora é advogada e Professora Universitária; autora de incontável número de publicações importantes que enriqueceram o mundo científico, acadêmico e a Literatura local; possui doutorado em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; pós-doutorado em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montreal, Canadá; assento na Academia Brasileira de Filologia e Academia Acreana de Letras.
Também, não foi por acaso que recebeu convite estadunidense para integrar o quadro de Membros da International Writers end Artists Association - IWA e ser Confreira de Eduardo Galeano (Uruguai); Toni Morrison (Prêmio Nobel de Literatura - USA); Fernando Henrique Cardoso (Presidente do Brasil, 1994 - 2002); Príncipe Dom Duarte Nuno João Pio de Orleans e Bragança (Portugal) e mais uma infinidade de Artistas consagrados, colecionadores de Arte e Escritores notáveis, espalhados por mais de uma centena de países onde a IWA tem seu espectro. É fato que, por aqui, jamais se imaginou que uma acreana pudesse ostentar a dignidade de localizar o Acre no centro da Cultura mundial. Lessa é a primeira mulher da Amazônia a nos orgulhar com a envergadura de tão alto diploma vitalício, que lhe confere direito de indicar, votar e ser votada para os prêmios da Academia Sueca - Nobel e Literatura e Prêmio Internacional de Ativista da Fundação Gleitsman. O convite selado veio da parte da Condessa di Santa Sofia de Heristal - a Senadora e Embaixadora at Large do Parlamento Mundial para Assuntos de Segurança e Paz e Membro Perene do Conselho de Negócios da ONU, a Presidente de Honra da IWA Terezinka Pereira.
De tempo em tempo, na história da humanidade, chegam determinados momentos históricos em que a “filosofia vigente” não consegue mais responder às indagações e inquietações de uma determinada sociedade. Quando isso ocorre, a filosofia superada é suplantada por uma “nova filosofia emergente”, que pode ser até antagônica à filosofia dominante que lhe antecedeu. Estamos passando, agora, no Brasil, por um momento destes, com sintomas manifestos de desorientação moral, desmoralização institucional, confusão intelectual, oportunismo financeiro e apatia cultural que se estende da beira-mar à Amazônia - local onde as tabocas, os cipós e os galhos secos impedem a visão das árvores. 
É justamente nesta “hora sexta” que vem a lume ‘Tecido do Coração’, criação literária genuína, colhida na experiência de uma vida dedicada à educação de gerações. Sabedoria humana adquirida nos livros e no nobre ofício de Professora - uma voz ligada ao povo, sem os rigores dos que manejam o estilo. No conteúdo extemporâneo e universal da obra, a autora manifesta a intenção poética de oportunizar a serena reflexão a respeito dos temas existenciais humanos, como o amor, a morte, a felicidade, a tristeza, o lamento e as consequências das contradições humanas, traduzidas pelo: 
“... martelo de Deus a [nos] bater nos dedos...” (p. 23).
Tratar-se de uma publicação necessária à realização pessoal da autora que materializa sua verve poética na criação livre, elegendo o amor como abordagem temática principal. E cumpre este mister declinando das  ferramentas e recursos comuns à poesia, a exemplo da rima obrigatória e do metro. Com liberdade, competência e apurado senso estético, elege, em segundo plano, a prosa poética - estilo literário que apareceu como tendência marcante nas publicações acreanas a partir da última década - como digna de também figurar no seu livro de poemas:
“... Eu não quero roer caroços, eles estragam os dentes. Prefiro a polpa doce e macia das atas e frutas de conde. Essas são as minhas preferidas. Eu já não tenho paciência para lidar com mediocridades. Tornei-me uma pessoa exigente. Não quero estar em lugares onde desfilam vaidades. Eu prefiro as pessoas simples, inteligentes, que têm assunto e tutano na cabeça. Aborrece-me pessoas invejosas que tentam destruir quem elas admiram, cobiçando seus feitos, talento e sabedoria. Eu não suporto conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias, sobre as quais eu nem quero saber. [...] Embora seja uma mulher das Letras, já não tenho tempo para debater vírgulas...”. (Quando Já Se Viveu 60 Anos, p. 99).
A persona do amor, mulher que nunca é neutra, também figura na manifestação de personagens multifacetários - inclusive em Francês - que registram seus dramas (e tragédias) nas histórias de “doçura do mel”... ou desiludidas... São rostos desnudos de amantes que, em representação literária, sob o céu amazônico, expressam o anseio humano comum de encontrar o: “Amor Maior do Mundo”, “Amor Invisível”, “Amor Antigo” “Amor Atrevido” e outras infinitas formas de amor (ou de amar?) consoantes no livro.
O poema que praticamente abre o livro é “Bênção do Amor”. Um poemeto escrito em oito versos, sendo o “verso de prata” uma “redondilha maior”, o texto foi concebido para dar ao leitor o máximo de poesia em um mínimo de palavras: “...Refúgio das horas tristes, acolhe-me./Dá-me a bênção da poesia inatingível/E por isso, talvez a mais preciosa”. (p. 15).  O que mais me chamou à atenção em “Bênção” foi a simplicidade  invocatória e impressão de facilidade com que foi produzido, além da semelhança ocasional que guarda com os famosos versos de Goethe: “Oh Musas inefáveis,/ Oh formidável engenho Divino,/ Inspirai-me para que meu estilo/ Não desdiga da natureza do assunto.”
Do conjunto da obra, vou destacar aqui um recorte do poema monostrófico “Quem eu sou”, como mostra do vocabulário apurado e fluência de expressão da autora e, especialmente, pela demonstração de incrível capacidade de definição de um ser humano por si mesmo: “Eu sou a brisa que abranda os arredores,/ Eu sou a dança de salão elegante,/ Eu sou a cor que colore a vida [...] Eu sou a história minha,/ Eu sou pura como a flor,/ Eu sou doce como mel,/ Eu sou um pote de água,/ Eu sou nascente rumo ao poente” (p. 108).
Mais adiante, em “Você é assim”, diz: “Você é os brinquedos que brincou, As palavras que usou, O segredos que guardou, A criança que Deus criou”. Em ” AVESSOS DA VIDA” (p.111), percebe-se a determinação que move a sua poesia, o olhar sobre a vida, a maturidade, a grandeza humana, a serenidade da mulher corajosa, sem medo de usar palavras, em sentidos e figurações exatas na dimensão da vida: “Na vida já provei muitos dissabores, De risos zombadores,inveja, depreciação,Sobre as opiniões que tenho comigo”. Depois, em “Destino” (p.113), assegura: “O nosso corpo abriga uma alma, que é joia preciosa. Essa alma tem forças para vencer adversidades, que são como nuvens. Para vencê-las é suficiente manter a visão fixa no sol, seguir firme no ideal de sonhos, projetos e perspectivas”.      
Percebem-se, nas poesias, que as palavras não são traduções de um sentido mudo, mas criação aguçada de múltiplos sentidos. Aqui, a  linguagem não veste ideias, ao contrário, encarna significações, estabelece a significação entre a poesia e o mundo, sedimentando os significados que constituem uma cultura de sentir, pulsar, viver. A linguagem não é mais a seiva das significações, mas o próprio ato de significar, assim, a escritora, igualmente o ser falante, não pode governá-la voluntariamente, pois ela se faz sentir, vibrar, dizer, traduzir, significar, reinterpretar, contar, poetar, ao escrever: “Eu posso ser... A tinta da aquarela, A moça da janela, Que olha a passarela (EU POSSO SER A MOÇA DA JANELA, p. 114).
Por isso tudo, a obra literária não é um sistema fechado, ou seja, acabado e equilibradamente estruturado. Acredita-se que toda obra literária pode ser interpretada de diferentes maneiras, sem que isso comprometa a sua configuração original. Cada vez que o leitor toma contato com um poema, neste “Tecido do Coração”, acaba por reinventá-lo, na medida em que o reinterpreta segundo as suas representações psíquicas.
Aqui, igualmente Neruda, a autora apresenta a sua visão do mundo e da vida. Canta o amor, a esperança, a dor, o sofrimento, a justiça. Fala do rio, do luar, da noite, da chuva, do sol, das estrelas, como bálsamos e respostas para corações feridos. Privilegia, por outro lado, os contatos humanos,quando diz em “Meu Feitio”(p.116): Eu sou mulher campesina, da beira do rio, Faço da vida um poema macio, Pleno de tesouros e  encantos, Que escondem imensos acalantos”. Acredita não haver poesia sem o coração palpitar e  destaca, ainda, que a sociedade humana e seu destino são matéria sagrada e obrigação original para o poeta, quando fala do “Tempo na vida da gente” (p.119): Eu vejo o tempo passar ligeiro. Quando me apercebo já foi o ontem, estou no amanhã que se finda. Daí vem a pergunta: quanto tempo a gente perde nesta vida com bobagens e detalhes existenciais. Se fossemos somar os minutos jogados fora, notaríamos que perdemos anos inteiros”.

Vê-se, então, que as palavras não são traduções de um sentido mudo, elas são a criação de muitos sentidos. A linguagem de ‘Tecido do Coração’ não veste ideias, ao contrário, encarna significações, estabelece a significação entre o eu e o mundo, sedimentando os significados que constituem uma cultura, uma vida, um amor, uma saudade, um sentimento humano singelo. A linguagem não é mais a seiva das significações, mas o próprio ato de significar, assim, a escritora, tal qual um ser falante, não pode governá-la voluntariamente, deixa vazar a emoção “Caminhei pelo mundo, Andei, naveguei, mergulhei, Mais tarde aqui despertei, Não sei, não lembro aonde cheguei… Só sei que caminhei à procura De alguém, um lugar seguro, Um coração valente, maduro… (Caminhante da Vida, p.31).

Admiro, sinceramente, a autora quando ela escreve prosa ou poesia, assim como textos acadêmicos, pois sou um apreciador contumaz da sua prosa nos Jornais.  Já cheguei a declarar que a admiro literariamente, até a inveja, pelo realismo que empresta aos seus textos de criação original e pela competência de sua expressão linguística. Os mais achegados à Professora sabem da destreza com que desenvolve seus temas, sempre voltados ao ideal de fazer chegar a Justiça até aos mais humildes.
Ademais, Luísa Galvão Lessa Karlberg é uma boa amiga, boa filha e cidadã simples. Somos confrades e compartilhamos diversos sonhos. Deve ser por isso que me elegeu, imerecidamente, para degustar o primeiro cálix do vinho poético do sucesso do seu livro de poesias. Poesia/Pedra capaz de nos humanizar por fricção para nos tornar melhores a cada dia, além de produzir um efeito analgésico sobre a rebocadura das circunstâncias alucinantes da vida moderna: na pressa do trânsito que atrasa à chegada ao trabalho - porque a poesia serve de impenetrável escudo psicológico ao autor, seus leitores e demais sofredores inveterados... conforme registrou Graciliano Ramos em “comentários” a respeito de Memórias do Cárcere: “Se não fosse minha relação com os livros, na prisão, a exemplo de muitos companheiros meus, teria enlouquecido”.
E, esta particular insanidade é reforçada pelo dito popular, por nossas palavras: “poeta e louco são nomes sinônimos”. O motivo, quem se atreveria a revelar sem vestir o uniforme de iconoclasta? Parece óbvio. Todo poeta experimentado que ainda escreve, nesta “Pátria das Chuteiras”, só pode haver enlouquecido, para produzir um produto que ninguém quer comprar, aqui, como alhures - o Brasil provinciano não sabe ler!  Esta pertinente queixa poética é antiga. Foi estampada por Mário de Andrade no desvairismo provinciano de Paulicéia Desvairada (primeiro livro modernista publicado no Brasil): cujas entrelinhas afirmam que são Paulo era (continuará sendo?) entorpecente...
Espera-se que o leitor reconheça e encontre neste livro as mensagens que ele transporta. E que estas lhe provoque uma insuportável vontade de voar. Espera-se, também, que este ‘Tecido do Coração’ tenha a mesma sorte da Paulicéia, por prestar-se ao mesmo propósito instigador, à reflexão, resistência e mudança, neste caso, no nosso ambiente amazônico, padrasto dos poetas que testemunham impotentes os trabalhadores locais serem ameaçados nas suas conquistas históricas de luta. Um palco de conflito travado no calor de quarenta graus, “fritando” o povo.
Que mais dizer senão advertir que este tomo vai escrito no idioma do amor - única força construtora. Que Ele, por seu mérito, renove nossa admiração pela autora, acadêmica que merece o cúmulo dos nossos encômios. E que a capacidade nobiliárquica da poesia sustente nossa esperança no porvir. Isso porque ao  escrever o ser humano se inscreve na matéria, imortalizando o seu pensar e o seu sentir. Escrever é, nesse sentido, um ato de imortalidade ao que a pessoa foi ontem,  será amanhã e é hoje. Ao escrever o seu hoje, que amanhã será passado, o poeta continuará presente. Por esse motivo, o domínio da escrita torna-se importante não somente quanto ao aspecto social ou profissional, mas principalmente quanto ao aspecto existencial.
Fait un bon voyage, ‘Tecido do Coração’!
Renã Leite Pontes
* Professor, escritor, poeta. Membro da Academia Acreana de Letras e Presidente da Academia dos Poetas do Acre.

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