sexta-feira, 13 de maio de 2011

O BRASIL HUMILHA SEUS PROFESSORES

 

A Constituição do Brasil estabelece que a educação é direito de todos os cidadãos e dever do Estado. O professor é peça fundamental para cumprir essa determinação da nossa Carta Magna. Mas assistimos, hoje, a uma assustadora carência de profissionais no magistério. Segundo o Ministério da Educação, faltam 710 mil professores no país, 235 mil só no ensino médio. Já de quinta a oitava série o número dobra, vai para 475 mil. Com o aumento do número de jovens matriculados no Ensino Médio, o Brasil pode passar por um apagão de professores. A situação se agrava quando se analisa a situação dos cursos de licenciatura nas universidades, que possuem as maiores taxas de evasão e a menor procura no vestibular.

Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP/MEC) sobre a educação básica indicam que são necessários 235 mil professores no ensino médio e 476 mil para as turmas de 5ª a 8ª série, totalizando 711 mil professores. Segundo o órgão, nos últimos anos, o número de professores formados nos cursos de licenciatura foi de 457 mil, gerando uma lacuna de cerca de 250 mil docentes. O estudo feito pelo INEP revela que o Brasil necessitaria de 55 mil professores de Física e o mesmo número de Química. Entre 1990 e 2001, apenas 7.216 professores graduaram-se em Física e 13.559 em Química. Os dados apontam que o magistério se tornou uma profissão em extinção.

O que dizer do Professor Universitário? É uma pessoa que estuda entre 25 a 30 anos para obter um título de Doutor e ganhar um salário ultrajante. O professor universitário, com doutorado e pós-doutorado, ganha R$5.500,00. Deveria ganhar por volta de 20.000,00. Um analista federal, com curso superior, sem nenhuma pós-graduação, ganha em torno de 8 a 12 mil. Um Fiscal de Rendas, com apenas o Curso Superior, ganha 16.000,00. Em Brasília, no Senado Federal, segundo dados do Correio Brasiliense, os auxiliares legislativos, como ascensoristas e motoristas — funções de nível fundamental — podem ter o teto da carreira estipulado em quase R$ 17 mil com as gratificações. Um motorista do Senado ganha mais para dirigir um automóvel do que um oficial da Marinha para pilotar uma fragata. Um diretor que é responsável pela garagem do Senado ganha mais que um oficial-general do Exército que comanda uma Região Militar ou uma grande fração do Exército. É uma disparidade que não é possível compreender o bom-senso. Por isso tudo as universidades federais começaram o segundo semestre de 2010 com carência de, pelo menos, 800 professores efetivos na rede de ensino. Que país é esse?

Já faz muito tempo que a carreira do magistério deixou de ser atraente. O salário de um professor nos anos 50, do século XX, equiparava-se ao de um juiz, hoje é cerca de dez vezes menor. Hoje a situação do professor da Rede Pública de Ensino, na Educação Básica, é humilhante. Também é humilhante em qualquer outro nível, tanto no ensino médio quando no ensino superior. O salário de professor é o mais baixo entre as carreiras que exigem graduação para poder ser exercida. Médicos e advogados chegam a ter um salário dez vezes maior que o de um professor. Um juiz recebe um salário 20 vezes maior que o professor. E ele precisa ser, apenas, graduado em Direito. Qual o motivo de tamanha disparidade salarial?

Este ano, apenas 2% do orçamento foi destinado à educação e 30% foram destinados para o pagamento da dívida externa do país. O resultado dessa política é que o Brasil, apesar de ser a oitava economia do mundo, ocupa o vergonhoso 88º lugar no Índice de Desenvolvimento da Educação (IDE) elaborado pela Organização das Nações Unidas para Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

Desse modo, percebe-se que, ao contrário do que rege nossa Constituição, a educação em nosso país não é tratada nem como prioridade nem como um direito de todo cidadão  - e dever do Estado. Os filhos de trabalhadores estudam em escolas com estruturas precárias onde faltam laboratórios de ciências e informática e que são invadidas pela violência e pelas drogas. Não há uma política séria para se elevar o nível de aprendizagem dos estudantes, no Brasil, e o que em alguns locais se chama progressão continuada é simplesmente uma aprovação instantânea.

Os professores têm uma carga horária estressante, baixos salários e péssimas condições de trabalho. São alguns dos fatores que fazem um número cada vez menor de interessados na carreira docente. Muitos são os professores da rede pública de ensino que mudam de profissão por não terem mais condições de sustentar a si e a sua família. Por isso, é fundamental que nós professores nos unamos, em cada Estado, para lutar por nossos direitos e por um país que respeite a educação pública.

Professor é sacrifício, é fome, é dor, é sala lotada, salário de fome, é humilhação todos os dias, do começo ao fim. A desvalorização do professor é crônica. E estatísticas apontam que daqui há alguns anos será raro quem queira aspirar essa profissão. Contudo, não é a profissão professor que é humilhante, é quem “pensa” a educação e que tem o poder da caneta, de impor políticas públicas que relega a essa profissão à miséria e à humilhação. Se a profissão professor fosse pensada, planejada e estruturada por professores, e não “burrocratas”, dificilmente seria esta visão que a sociedade teria de quem leciona. Uma boa resposta para quem leciona hoje sobre se é ou não vergonhoso ser professor poderia ser: “Não tenho vergonha de ser professor, tenho vergonha das condições sobre as quais sou submetido por planos e mais planos que prioriza números e não pessoas”. É como diz o chavão Lula: Nunca na história desse país se deu tão pouca atenção à educação.

DICAS DE GRAMÁTICA

CONTAGIANTE OU CONTAGIOSO?

- Contagiante não é exatamente a mesma coisa que contagioso. Um entusiasmo contagiante é aquele que se transmite a todos. Uma doença contagiosa é aquela que muitos podem pegar. Em ambos os casos, trata-se de algo que se espalha com facilidade. Contudo, convencionou-se assim: contagiante para as coisas boas; contagioso para as coisas ruins. Fica resolvido!

DE PIOR A MELHOR

- Melhor e pior podem ser adjetivos ou advérbios. Como adjetivos, flexionam-se: dias melhores virão. Já como advérbios, permanecem invariáveis, como nesses exemplos: Nós estamos pior ou nós estamos melhor. Embora semelhantes, são coisas diferentes.

3 comentários:

Luísa Galvão Lessa disse...

Prezada Professora.
Eu li seu artigo de 13/05, postada sob o titulo "O Brasil Humilha seus Professores" e com o devido respeito tomo a liberdade de manifestar sobre suas idéias.
Primeiramente coloco-me em concordancia com a sra em gênero, número e grau quanto a importancia da educação para o desenvolvimento, e desta forma trabalhos como os seus, como tambem os de Gustavo Ioschpe, que escreve para a Revista Veja, entre outros teem o mérito de inserir elementos perturbadores na placidez do tecido socio politico, demonstrando o quanto pode ser deturpado o esperado desenvolvimento economico brasileiro sem a adequada base educacional.
Já se disse, mestra, que se houver a possibilidade de se nominar de panacéia a alguma coisa, sem espírito pejorativo, com certeza pode-se dizer que a educação é a panacéia que pode tratar todos o males, e eu concordo plenamente com esta afirmação.
Porem, se há concordancia quanto aos fins, quanto aos meios não dividimos a mesma opinião quanto a melhor forma de emular o ensino brasileiro.
Pelo que li, a professora começa por nominar varias classes laborais, comparando p. exemplo juizes, fiscais de rendas, ascensoristas, motoristas, oficiais militares, professores.
Embora concorde que a função ensino necessite ser valorizada como vertente da percepção de que a Sociedade do Conhecimento será a que poderá dar mais frutos em um mundo cada vez mais dependente da tecnologia e do saber não tecnológico, não será fomentando a briga de classes que se poderá chegar a tal fim.
No caso particular dos Agentes Fiscais de Rendas, classe a que orgulhosamente pertenço e que a sra minimizou como sendo portadores de apenas o Curso Superior, digo à sra que realmente apenas o curso superior de qualquer espécie capacita o candidato a exercer o cargo. Note que apenas interessa o nivel de 3º grau, podendo a ele se candidatarem inclusive professores.
Porem, sendo um cargo que envolve a enorme responsabilidade de zelar pela Fazenda Pública, sendo inclusive responsaveis pelos recursos com que são pagos os professores, exige-se dos mesmos plena independencia financeira, pelo que aos cargos são oferecidos salarios diferenciados aos que são aprovados nos concursos para os quais concorrem cerca de 10 até 60 mil candidatos por vaga. A relação candidato/vaga já define naturalmente que apenas os mais capacitados conseguem ser admitidos.
De outra parte, talvez a professora não saiba, mas o processo de seleção é apenas o passo inicial para iniciar no cargo de Agente Fiscal de Rendas. No caso do Estado de São Paulo o estudo posterior da legislação tributária envolve o conhecimento de leis, regulamentos, decretos, portarias, normas etc. cujo número não me arrisco a precisar, mas posso afirmar que são mais de 2 mil diplomas legais, alguns com mais de 600 artigos, como o Regulamento do ICMS do Estado de São Paulo.
Como disse anteriormente, concordo plenamente que a educação deve ser valorizada e desta forma os profissionais da educação, mas a simples comparação de valor entre classes apenas divide, não soma.
Das várias formas de se valorizar a educação entendo que a elevação de renda da população é uma delas. Os governos recentes do ex presidente Lula da Silva, bem como da Sra Dilma Roussef condicionam em suas planilhas de distribuição de renda que os filhos estejam frequentando a escola. É de se esperar que estas gerações já estejam em um patamar educacional acima quando gerarem seus filhos, criando uma demanda não mais exógena, mas endogena nas familias pela educação.
Peço que a professora me desculpe pelas conlocações, declarando-me seu fiel admirador.
Abraços.
Jorge Pereira

Luísa Galvão Lessa disse...

Prezado Senhor Jorge Pereira,

Divido minha resposta em duas partes. Há problemas com HTML.

1ª parte - Fiquei sensibilizada por Vossa intervenção, ao meu artigo, como leitor. Agradeço-lhe por ela. Sem o leitor o escritor fica em completa solidão. Mas falando sobre o tema de meu artigo, ali não acirro uma disputa de classes, profissões, ofícios. Todas as profissões são dignas. Mas considere que todas elas são preparadas por um professor. O senhor mesmo, para aprender tudo quanto aprendeu necessitou dos ensinamentos basilares de muitos professores. Embora tenha havido um esforço fenomenal para aprender uma legislação, nós professores, aprendemos todas as lições, todos os conteúdos, domimanos todas as disciplinas, estudamos todas as ciências. Sem a nossa figura o Senhor não teria feito o bem sucedido Concurso para Fiscal de Rendas e não estaria ganhando os justos R$ 16.000,00. Ao mencionar a Vossa classe, não desejei desmerecê-la, assim como as demais - excusez-moi. A menção a determinadas profissões servem para ilustrar o pouco caso que o país dá à educação brasileira. Eu mesma, como professora Universitária, com 50 anos de docência, com formação em nível de excelência – doutorado e pós-doutorado – tenho um salário de R$5.500,00. Para chegar aonde cheguei precisei estudar uns 30 anos seguidos. Logicamente, nesse aprimoramento, houve grande envestimento de minha parte. Tudo quanto ganhei foi para alimentação, vestuário, moradia, livros, educação. Não me foi possível guardar dinheiro, mesmo porque nem sempre ganhei R$ 5.500,00. Houve períodos em que ganhava bem menos, mal dava para comer, vestir e alimentar minha filha. O senhor acha justo essa dicotomia salarial na sociedade brasileira, quando o professor é figura excelsa que prepara e dá formação a toda gente, em forma de ensino institucionalizado? Conduzir essa discussão para o campo pessoal é uma atitude simplista para não discorrer sobre o grande gargalo do país que é a educação e formação dos brasileiros e, por conseguinte, os miseráveis salários pagos aos professores. O Senhor, como economista – persumo que seja a Vossa formação – deve ter clareza da dura e desigual realidade no mercado de trabalho no país. Um traço peculiar do mercado de trabalho, aqui, é a ocorrência de diferenciais salariais bem mais elevados que aqueles observados em economias em estágio de desenvolvimento similar.
De outra parte, analise que essa questão se arrasta há séculos, desde o tempo que o Senhor era estudante – ou mesmo antes, no tempo de Vossos pais. Reflita que no Brasil – isso é histórico – sempre ocorreu uma divisão entre classes sociais e profissões. A cada tempo essa condição mais se evidencia. E um país NUNCA poderá crescer – na medida desejada e esperada – se não valorizar os profissionais em educação. Na ausência dessa política, o país vive um caos educacional. Sofre um “apagão” por falta de professores.

Luísa Galvão Lessa disse...

Prezado Senhor Jorge Pereira, aqui segue a segunda parte.
2ª parte - Uma classe social é um grupo de pessoas que têm status social similar, segundo critérios diversos, especialmente o econômico. Diferencia-se da casta social na medida em que ao membro de uma dada casta normalmente é impossível mudar de status. E segundo a ótica marxista, em praticamente toda sociedade, seja ela pré-capitalista ou caracterizada por um capitalismo desenvolvido, existe a classe dominante, que controla direta ou indiretamente o Estado, e as classes dominadas por aquela, reproduzida inexoravelmente por uma estrutura social implantada pela classe dominante. Segundo a mesma visão de mundo, a história da humanidade é a sucessão das lutas de classes, de forma que sempre que uma classe dominada passa a assumir o papel de classe dominante, surge em seu lugar uma nova classe dominada, e aquela impõe a sua estrutura social mais adequada para a perpetuação da exploração.
A divisão da sociedade em classes é consequência dos diferentes papeis que os grupos sociais têm no processo de produção, seguindo a teoria de Karl Marx. É do papel ocupado por cada classe que depende o nível de fortuna e de rendimento, o gênero de vida e numerosas características culturais das diferentes classes. Classe social define-se como conjunto de agentes sociais nas mesmas condições no processo de produção e que têm afinidades políticas e ideológicas.
De tudo que aqui se fala – muito mais poderia ser dito -- se educação (escolaridade) for considerada como única variável representativa do capital humano, seu impacto sobre os salários deverá ser superestimado. Mas não é isso que se discute no artigo. Deseja-se a dignidade de profissionais que educam a nação brasileira. Se o Senhor acha isso pouco, imagine-se viver sem escolas, sem professores, sem profissão e, logicamente, sem o Vosso justo salário de R$ 16.000,00. O Senhor – pela lógica de seus pensamentos – é bastante inteligente para compreender esse colapso entre o salário de um professor e o de outros profissionais brasileiros. O Senhor é um bom exemplo do que a Educação pode fazer por uma pessoa.

Obrigada pela inter-locução.

Atenciosamente,

Profª. Drª. Luísa Galvão Lessa

A vida da gente é feita assim: um dia o elogio, no outro a crítica. A arte de analisar o trabalho de alguém é uma tarefa um pouco árdua porque mexe diretamente com o ego do receptor, seja ele leitor crítico ou não crítico. Por isso, espero que os visitantes deste blog LINGUAGEM E CULTURA tenham coerência para discordar ou não das observações que aqui sejam feitas, mas que não deixem de expressar, em hipótese alguma, seus pontos de vista, para que aproveitemos esse espaço, não como um ambiente de “alfinetadas” e “assopradas”, mas de simultâneas, inéditas e inesquecíveis trocas de experiências.