quinta-feira, 9 de junho de 2011

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO NA CONTRAMÃO DA HISTÓRIA

O Brasil é um país que brinca com a educação. Não é, definitivamente, um país sério. Prova disso é esse logro que faz o Ministério da Educação contra os estudantes, quando utiliza o Programa Nacional do Livro Didático para distribuir 485 livros ensinando os alunos a falarem de forma errada a língua portuguesa. Este livro, “Por uma vida melhor”, da coleção “Viver, aprender”, faz a defesa do uso da língua popular, embora ela contenha muitas incorreções. Seus autores argumentam que o conceito de se falar certo ou errado deve ser alterado para adequado ou inadequado. Eles desprezam a gramática e o padrão culto, erudito da Língua Portuguesa. Em trechos da obra, há afirmações escandalosas, por exemplo, na pergunta: "Posso falar “os livro?”Resposta: “Claro que pode”. Outras frases citadas e consideradas válidas são "nós pega o peixe" e "os menino pega o peixe". Heloisa Ramos, uma das autoras do livro, entrevistada pelo Jornal Nacional, afirmou que não se aprende a língua portuguesa decorando regras ou procurando palavras corretas em dicionários. E se aprende falando “Nós pega o peixe”?!

Absurdo uma professora universitária induzir alguém a acreditar que o ensino do vernáculo ficará melhor ao se desprezar o uso da gramática e dos bons dicionários. Que ela acredite nisso é menos mal, agora que o Ministério da Educação abrace essa absurda ideia, aí a coisa se complica. Que Ministério é esse, afinal? Quando o culto a língua vernácula deixar de ser prioridade num país, melhor será fechar as escolas. Afinal, a escola não serve mais para o culto do saber institucionalizado, a preservação e o respeito à literatura, aos bons escritores. Então, a linguagem não é mais requisito para a ascensão social dos cidadãos?

Durante minha vida já convivi com pessoas de variadas formações. Conversei com seringueiros, pescadores, agricultores, madeireiros, gente que desconhece o mundo da escrita. Gente nobre, do mais alto valor humano. Apreciei conversar com essas pessoas, aprendi tantas coisas, jamais censuraria a forma como se expressam, afinal essa gente não teve o privilégio de freqüentar nenhuma escola, além daquela da vida difícil. Logicamente, censurá-los seria estupidez, discriminação, preconceito. Da mesma forma ninguém tem o direito de ensiná-los a dizer “Nós pega o peixe”, “Nós vai”, utilizando um livro que custou um dinheirão para contrariar todos os princípios e regras da gramática portuguesa. É preciso ter respeito pelo povo brasileiro.

Admite-se que um artista, um escritor componha uma canção, escreva um conto ou um livro, usando expressões populares, que seriam incorretas desde o ponto de vista formal, ou colocando-as em boca de seus personagens ou mesmo inventando neologismos que não existem no dicionário. A escrita magistral de Guimarães Rosa, a poesia de Adélia Prado, os sambas de Adoniran Barbosa, entre outros, exemplificam a riqueza a que faço referência. É outra situação, outro contexto, é um trabalho grandioso que fazem com a linguagem enquanto obra de arte.

Mas não é isso que faz o Ministério da Educação e tão pouco essa professora. Trata-se de um livro didático, distribuído pelo órgão governamental que deve cuidar do aprendizado da língua portuguesa falada no Brasil, e que faz a defesa da linguagem incorreta, ensinando jovens a falar mal o idioma pátrio. Que iguais e democráticas chances de competição terão esses jovens na vida profissional, principalmente na área dos concursos públicos? Como vão eles enfrentar os jovens da classe mais abastada, oriundos de escolas padrão classe A, onde se ministra a gramática oficial? O que vai acontecer com o candidato, que na prova de seleção, em qualquer empresa privada ou certame público, grafar uma frase com expressões tais como “posso falar os livro?”, “nós pega o peixe” ou “os menino pega o peixe”? Eles não serão, simplesmente, as pobre “vítimas de preconceito linguístico”, como está no livro. Esses jovens vão tomar um ‘debout à l'arrière’ e perder a chance do emprego e de um futuro melhor.

Com todo respeito e sem sentimento de superioridade ou arrogância, "Nós pega o peixe" não dá para aceitar. Se a educação já é o problema número 1 do Brasil, em relação ao futuro, se os responsáveis por ela começarem a ensinar a escrever e falar errado, onde vamos parar? Esse livro deve ser recolhido e queimado. O ministro, que fez a distribuição, deve ser punido, severamente, pela Lei. Afinal, faz mal uso do dinheiro da nação.

Percebe-se, nesse episódio, mais uma vez, que povo sem cultura ou cultura muito “flexível” é tudo o que quer a classe política instalada há décadas no Brasil. Essa é a arma que eles utilizam para manter os cabrestos e feudos políticos. Talvez por isso queiram enfiar em nossas cabeças que "nós pega peixe". Só não podem esquecer é que "nós também vota!"

DICAS DE GRAMÁTICA

NÓS PEGA O PEIXE, ESTÁ CERTO, PROFESSORA?

- Segundo o padrão culto da língua portuguesa, aquele ensinado nas escolas, está errado. O pronome “Nós” exige o verbo na terceira pessoa do plural: Nós pegamos o peixe.

POSSO FALAR “NÓS VAI”?

- Poder você até pode, mas é forma condenável pelo padrão culto gramatical brasileiro. Nenhum concurso público, vestibular, Enem, vai aceitar isso como adequado. Então, o melhor é aprender a forma correta: Nós vamos; Os meninos; Os meninos pegam o peixe, etc.

2 comentários:

Jorge disse...

Prezada Professora.
Li seu comentário sobre os recentes livros publicados pelo Ministério da Educação e gostaria de expor meu ponto de vista.
Confesso que de inicio me municiei de várias "pedras" para jogar na senhora, mas a elegância com que foi tratado o tema me desarmou e me fez perceber que o importante é que as ideias sejam debatidas e contrapostas até que se possa chegar a um consenso final.
De qualquer forma, como dizia Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra, e aqui, respeitosamente, coloco minha opinião contra a quase unanimidade que condena os ditos do citado livro.
Entre os vários significados da palavra poder, encontrei dois que podem ser chamados aqui. O primeiro é "ter capacidade", o segundo é "pedir permissão", geralmente numa frase interrogativa. Me desculpe se eu estiver errado, mas acho que essa divisão se confirma nas duas traduções póssiveis da palavra na lingua inglesa: Can e May.
No caso o aluno pede pra falar, e não para escrever (posso falar os peixe?). Caso não pudesse, a resposta óbvia seria: Vá aprender a norma culta primeiro.
Então, professora, acho que o importante é trazer para junto essas pessoas de linguagem simples primeiro, para depois, num aprendizado mútuo, trocar o que de melhor pode ter a vida, porque, convenhamos, se Adoniram Barbosa PODE falar errado sem pedir permissão, porque esta gente simples não pode pedir para ser comprendida?

Luísa Galvão Lessa disse...

Caríssimo Jorge,

Primeiro agradeço por haver lido meu artigo; depois, por interagir comigo; por último, por não ter arremessado as pedras. Já começava a construir um paredão! Mas, em verdade, o senhor deveria arremessá-las no Ministério da Educação que comprou quase meio milhão de livros – com dinheiro do contribuinte -- para ensinar os jovens brasileiros a falarem errado o idioma pátrio. Toda criança que vai a escola é para aprender o padrão culto da língua, por isso existe a disciplina Língua Portuguesa. Depois, as "Gramáticas" padronizam a norma de bem falar o idioma. E quando uma criança vai à escola é para aprender a dizer: "Nós pegamos o peixe" e não "Nós pega o peixe". Este último padrão, alguns já trazem do seu meio social. Compete à escola ensinar o padrão culto da língua, pois é esse padrão que permite a ascensão social das pessoas, por meio de concursos públicos, etc.
Quanto ao papel da literatura, da música, da poesia, existe a chamada “licença poética” que permite ao escritor trabalhar as nuances da linguagem, segundo as intenções literárias, o mundo que deseja alcançar por meio das “construções” e jogos de linguagem. Assim, a licença poética é uma incorreção de linguagem permitida na poesia. Em sentido mais amplo, são opiniões, afirmações, teorias e situações que não seriam aceitáveis fora do campo da literatura.
Por tudo isso, não é possível, ao Brasil, fazer livros com erros grosseiros e distribuí-los aos estudantes. Isso é um crime contra a cidadania. Fácil será o professor dizer em sala de aula – como de fato diz -- que temos outra linguagem, a popular, não erudita, como se fosse um dialeto. Os livros servem para os alunos aprenderem o conhecimento erudito e não o popular.
Ademais, uma coisa é compreender a evolução do idioma, que é um organismo vivo, e outra é validar erros grosseiros. É uma atitude de concessão demagógica. É o mesmo que ensinar tabuada errada. Quatro vezes três é sempre 12 na periferia ou no palácio. Na língua portuguesa é igual, se deve ensinar, SEMPRE, a forma correta, esse é o papel do ensino institucionalizado.
O idioma -- assim como a moda, a música, além de outras formas de expressão – é considerado aspecto fundamental da cultura de um povo. Argumentar que o acesso à escolaridade e ao conhecimento da norma culta são fatores de preconceito social e conflito de classes é como dar um tiro no pé. Entendo que todos os cidadãos devem buscar o “prestígio”, pois a ideia é que todos possam, por meio da educação, alcançar sucesso profissional e social. No entanto, como conseguir ascensão social e profissional falando “Nós pega o peixe”?
O filósofo austríaco chamado Ludwig Wittgenstein – numa de suas obras, ainda no século XX -- esclarece as condições lógicas que o pensamento e a linguagem devem atender para poder representar o mundo. Assim, ele escreveu: “Os limites de minha linguagem são também os limites do meu pensamento”. Considero esta frase um resumo exato sobre a importância da capacidade de expressão por meio das palavras. Aquela pessoa que não tem conhecimento do uso das palavras não tem ferramentas para expressar seus pensamentos, portanto, encontra dificuldades para exigir seus direitos, defender suas ideias, divulgar seus conhecimentos, enfim, é facilmente manipulada e tolhida em sua cidadania.
Desculpe-me a insistência, mas não posso concordar com a política do MEC, em relação a esse tal livro didático. Por isso recomendo não desperdiçar suas pedras, elas têm um alvo certo em defesa do idioma pátrio, em defesa da cidadania brasileira. Não as use em minha direção, faça pontaria no Ministro Haddad. Afinal, foi ele quem gastou uma fortuna da nação para enganar os jovens do Brasil.
Att.
Profª. Luísa

A vida da gente é feita assim: um dia o elogio, no outro a crítica. A arte de analisar o trabalho de alguém é uma tarefa um pouco árdua porque mexe diretamente com o ego do receptor, seja ele leitor crítico ou não crítico. Por isso, espero que os visitantes deste blog LINGUAGEM E CULTURA tenham coerência para discordar ou não das observações que aqui sejam feitas, mas que não deixem de expressar, em hipótese alguma, seus pontos de vista, para que aproveitemos esse espaço, não como um ambiente de “alfinetadas” e “assopradas”, mas de simultâneas, inéditas e inesquecíveis trocas de experiências.