sábado, 8 de fevereiro de 2014

OS BENS MODELARES DE UMA PESSOA DIANTE DA VIDA

 

alegria

 

Há certa altura da vida senti necessidade de tomar difíceis decisões comigo mesma. Então, naquela ocasião eu me perguntei: “ Essa decisão deve vir da razão ou do coração”? Após refletir bastante, tomei a decisão mais alinhada naquilo que pedia o coração. Os resultados não foram aqueles esperados, mas não por culpa minha, muitos outros corações entraram em ação e não souberam negociar comigo. Senti-me derrotada, mas depois senti que havia agido com correção. Por isso mesmo ainda hoje estou tranquila e confiante que o coração não engana e não mente. E embora haja corações egoístas, malabaristas, o meu será, sempre, um coração puro e pleno de amor.

Então, refletindo sobre esse fato passado, as ações presentes e as perspectivas do futuro eu vejo três palavras que embora sejam semelhantes, definem 3 valores humanos que julgo de extrema importância. Delas trata o texto de hoje.

Sob o aspecto conceitual esses valores – VERDADE, SINCERIDADE E HONESTIDADE – são muito diferentes, e cada pessoa possui um referencial e uma profundidade específica para analisá-los. Aqui, faço uma reflexão das nuances de cada uma dessas palavras (ou valores humanos). Para mim são esteios da vida.

VERDADE – Como descrevê-la? É um valor individual que está relacionado à percepção que cada pessoa tem em relação às coisas ou fatos da vida. As experiências vividas, a percepção de mundo, as características de personalidade fazem com que cada um modele a “própria verdade”, sobre um determinado assunto e olhar sobre a vida. Por isso mesmo a verdade parece ser algo individual… E um exemplo claro dessa assertiva é este texto, que traduz “ a minha verdade” sobre este valor humano. Assim, o leitor poderá concordar ou discordar, afinal cada um tem a própria verdade e não há como não perceber isso. Mesmo assim ela deverá ser permeada pela boa lógica da vida.

SINCERIDADE - A“sinceridade” é tratada pelo modelo de classificação de valores humanos como um “valor social”. Se uma pessoa é sincera não necessariamente está sendo ética ou utilizando a consciência sistêmica coletiva. A sinceridade é pessoal, porém afeta o coletivo, positivamente ou negativamente. Tudo depende do contexto e da intenção do agente.

Ser sincero requer coragem e integridade. Muitas vezes ser sincero pode ferir a imagem que as pessoas criam umas das outras. Em outras ocasiões ser sincero fere regras sociais e de convivências. E, às vezes, ser sincero pode ofender ou desapontar pessoas de um modo geral, em função das expectativas que os seres humanos são mestres em criar em relação aos outros.

E a falta de sinceridade? O que ela pode causar nas relações? Em um mundo aberto, onde nossas vidas estão expostas e escancaradas de variadas maneiras – redes sociais, Google, meios de comunicação, informações fiscais, CPF, não é mais possível manter a máscara da falsidade por muito tempo. Está tudo muito exposto, aberto. As verdades afloram. Então, ser sincero é um requisito fundamental à paz e à integridade das pessoas. Por isso, talvez, o adágio popular: “Não faça aos outros aquilo que não quer que lhe façam”.

Ser sincero hoje não é mais uma opção. É obrigação. Neste caso eu não posso ofertar, no texto, escolhas. Não há opções a apresentar para configurar o valor de “verdade”, que poderiam ser algo como concordar parcialmente ou discordar. Sinceridade é um atributo que deve ser incorporado aos gens de todos os seres humanos. Isso porque no mundo atual não há mais espaço para sobreviver muito tempo a base de mentiras, falsidades. Isso faz da vida algo insuportável quando é preciso lidar com pessoas desonestas, mascaradas, arrogantes, falsas, que jogam com os outros como se fossem brinquedos. A alma humana é um tesouro que todos devem respeitar.

HONESTIDADE - E Honestidade, como classificá-la? Pergunto: Você, leitor é honesto?  Sim (   ) – Não (   ) – Às vezes (   ). Depois, mais uma pergunta: Alguém gosta de ser classificado como desonesto? Eu penso que não. Honestidade é algo mais intrínseco, profundo, está ligado ao caráter, ao conjunto de valores e crenças que se adquire ao longo da vida.

Mas voltando ao valor elevado “Honestidade”, diz-se que ser honesto requer incorporar a verdade pessoal e analisar as atitudes e tomadas de decisões para ver se podem ser melhoradas/aperfeiçoadas. Requer ser sincero nas atitudes; congruente nos pensamentos, sentimentos e ações; e assumir atitudes honestas diante da vida, das pessoas. Ser honesto é estar conectado com algo maior, tais como: o senso ético; o valor de justiça; o senso de humanidade; o respeito e o amor pelas pessoas.

Por fim, eu acredito que ser honesto requer pensar e atuar de forma a gerar melhorias e igualdade no meio que nos abraça. Ser honesto é colocar-se à disposição das necessidades individuais, mas, sobretudo, à disposição das necessidades que fazem de nós seres humanos. E, nesse aspecto, deve-se, sempre, agir da melhor forma. A vida é única e ser bom, correto, honesto, leal, não requer malabarismos ou metáforas. É a vida dentro da própria vida.

DICAS DE GRAMÁTICA

À FOLHA 22 ou ÀS FOLHAS 22, PROFESSORA?

- Juiz acreano pede informação sobre o uso correto: "O depoimento da testemunha encontra-se à folha 22, a folhas 22, as folhas 22 ou às folhas 22 do processo?" Meritíssimo, as duas primeiras formas podem ser utilizadas.

A história dessa expressão começa com a locução adverbial "a folhas tantas", que quer dizer "a certa altura, em dado momento". O autor do livro "Locuções adverbiais" (Curitiba: UFP, 1985) exemplifica assim: D. Maria a folhas tantas avocou o processo a si. A mulher a folhas tantas pôs-se a chorar. Daí a substituir a palavra "tantas" por um número foi um pulo. Alguém resolveu fazer assim e acabou se tornando tradição na área jurídica.

Transcrevo observação do gramático Napoleão Mendes de Almeida: "Na linguagem forense se diz a folhas vinte e duas – significa “a vinte e duas folhas do início do trabalho” como quem diz “a vinte e duas braças”. O mesmo se diga de"a páginas vinte e duas".

O usual, nos processos, é escrever abreviado:

  • a fls. 20 / a fls. 11 e 12 / a fls. 1 a 5 [nestes casos também se usa de fls. x]

Mas nada impede que se adote a expressão de acordo com as normas gramaticais, distinguindo-se então o singular à [para uma só folha] do plural às [várias folhas]:

  • O depoimento se encontra à fl. 3 do processo.

· Citado às fls. 3 a 9 ou às fls. 11 e 12 do processo.

A propósito, vale notar que é equívoco usar a expressão "a fls." ou "de fls." (assim sem o n°) como equivalente ou substituto para "conforme peça juntada aos autos / na petição inicial/ nos autos" ou similar. Por exemplo, em vez de dizer Condeno o réu a entregar o imóvel descrito a fls. ao reivindicante, diga Condeno o réu a entregar o imóvel descrito na petição ao reivindicante.

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Luísa Galvão Lessa – É Pós-Doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montréal, Canadá; Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ; Membro da Academia Brasileira de Filologia: Membro da Academia Acreana de Letras; Pesquisadora Sênior - CAPES

Um comentário:

Anônimo disse...

Fantástico esse texto, Doutora! Quanta sabedoria, humildade e amor no teu coração. Lindo, lindo.

A vida da gente é feita assim: um dia o elogio, no outro a crítica. A arte de analisar o trabalho de alguém é uma tarefa um pouco árdua porque mexe diretamente com o ego do receptor, seja ele leitor crítico ou não crítico. Por isso, espero que os visitantes deste blog LINGUAGEM E CULTURA tenham coerência para discordar ou não das observações que aqui sejam feitas, mas que não deixem de expressar, em hipótese alguma, seus pontos de vista, para que aproveitemos esse espaço, não como um ambiente de “alfinetadas” e “assopradas”, mas de simultâneas, inéditas e inesquecíveis trocas de experiências.