domingo, 12 de julho de 2009

COMO NASCEU O AMOR ROMÂNTICO

A pergunta que se faz não interessa a muita gente. Mas refletir sobre ela faz lembrar que o Amor nunca é demais e que as pessoas devem se amar mais e melhor em cada novo dia, dando maior sentido à vida. Essa motivação deve povoar qualquer terra em que os seres humanos amem, bem como qualquer tempo onde as pessoas sonhem. Deve habitar a vida.

Refletindo sobre a questão andei por muitos lugares procurando uma resposta. Apelei para os historiadores, li sobre o amor através dos tempos e, seguindo, passo a passo, a construção da civilização ocidental, estudei o amor entre os Gregos, o amor entre os Romanos, o amor entre os Judeus. Entrei no cristianismo e li o amor na ótica de Agostinho, Jerônimo e Tertuliano, e me vi na Idade Média e lá contemplei o amor dos plebeus e dos nobres, e até o amor escondido nos conventos. Depois, saí pelos castelos acompanhando os trovadores e vi nascer entre eles o amor cortesão, onde só os filhos primogênitos se casavam por causa das heranças, que não eram divididas. Assim, sobravam vários jovens solteiros que se apaixonavam pelas damas e que só podiam viver um amor idealizado, logo sofrido.

Também, notei que o amor se fez ridículo, desprestigiado, tanto que na Idade da Razão ele fora reduzido à mera sensualidade. Seduzia-se pelo prazer de seduzir e não necessariamente pelo prazer do amor. Foi ali que encontrei Giovani Jacopo, Casanova e Don Juan Tenório de Servilha, o célebre Don Juan, personagem encantador da comédia de Tirso Molina, no século XVII. Nasceu, nesta esteira, no Ocidente, o amor romântico, tendo por base um conjunto de práticas que povoam as mentalidades amorosas desde o século XII, quando surgiu o amor cortês. Entre elas estão: a não aproximação dos corpos, comunhão de almas propostas pelo cristianismo, idealização do bem amado, abdicação ao amor a si próprio, completa fidelidade. A principal característica é amar o ato de amar, ou seja, amar o amor e não um outro, não importando possuir o objeto de amor, mas sim o sofrer e até o morrer por amor. Antes, as pessoas não casavam por amor. Isso é uma coisa recente, uma vez que o casamento era algo muito sério para se misturar com amor.No século XVII o amor chegou com novo alento. Trazia sonhos e fantasias. Era o amor romântico, o amor de Pierrot e Colombina, Romeu e Julieta, o amor de Tristão e Isolda, todos rígidos e marcados por impossibilidades. Quanto mais obstáculos a transpor, mais apaixonado ele se torna. Entretanto, em um determinado momento, interesses econômicos introduziram esse tipo de amor no casamento, transformando toda a sua história. A chegada do amor romântico fez do casamento o meio para as pessoas realizarem suas necessidades afetivas.
Até a Revolução Industrial, no final do século XVIII, as pessoas moravam mais no campo, junto a vários outros membros da família, o que fazia com que sentissem afetivamente amparadas. Os casamentos aconteciam por razões econômicas e políticas. Por isso duravam a vida toda. Não havendo romance nem expectativa de satisfação sexual, não havia decepções, e ninguém pensava em se separar.

Mas as fábricas e os escritórios que surgiam foram atraindo os homens para trabalhar nos centros urbanos. Nasceu, então, a família nuclear - mãe, pai, filhos - agora sozinhos na cidade. Para que o casal suportasse viver assim, longe daqueles com quem tinha laços afetivos, inaugurou-se o amor romântico no casamento.

O modelo de amor romântico, cuja paternidade foi atribuída a Rousseau, consistia em um projeto amoroso que era também uma proposta filosófica e política para a sociedade burguesa em ascensão. Na visão rousseauniana, o amor apaixonado devia ser a base da construção da família, pilar da sociedade. Assim, o ideal de amor romântico integra a sexualidade natural do homem com o amor e o casamento, propondo um amor recíproco e indissolúvel, cuja finalidade última é a felicidade. O amor deve ser exclusivo e eterno para garantir a estabilidade da família e levar adiante o projeto político. O amor romântico integra a natureza humana com os objetivos da sociedade política, pondo as paixões a serviço da comunidade e da vida pública.

Ao concluir, observe o leitor haver muito para ser dito. Há uma tese interessante do suíço Rougemont, onde ele afirma que a idéia do amor romântico nasceu no Ocidente, no século XII, do encontro entre a poesia trovadoresca e o pensamento de uma seita herética. Válida ou não, interessante ler e, também, mergulhar no mito de Tristão e Isolda, nos filmes hollywoodianos, passando por Shakespeare, Mozart e Freud, enfim, perceber o que dizem sobre o amor romântico, um amor que embala a vida de tantas pessoas e que o mundo moderno parece ter devorado. Mas tanto o amor cortesão quanto o amor romântico são invenções da cultura, e como a cultura muda com o tempo, uma concepção de amor que foi boa em determinada época pode se tornar anacrônica e até ridícula em outra. Importa perceber que o Amor é plural e não singular e que há inúmeras formas de amar, tantas quantas culturas existem no mundo.
DICAS DE GRAMÁTICA
RESIDENTE À / NA RUA XV?
A rigor, como os verbos morar, residir, situar, localizar e semelhantes regem a preposição em, deveria se usar na e não à nos casos específicos. Tudo bem, tanto é que se fala assim:
- Residimos na rua Tupi. - A casa está situada na avenida dos Guararapes. - Você ainda mora na mesma travessa? - A sede do Partido se localiza na rua XV.
Mas, por obra do dinamismo da língua, incorporou-se à escrita o emprego de à no lugar de na como complemento de tais verbos diante de logradouros como rua e avenida. O mesmo acontece com seus derivados morador, residente, domiciliado:
- Residente à rua XV.
- Manoel Silva, morador à rua Bosque, requer...
- Vende-se casa (situada/sita) à Avenida Nações Unidas.
- Aluga-se imóvel (localizado) à Av. Getúlio Vargas.
GRAFIA DAS HORAS
- A grafia que deve ser adotada em jornais, sentenças, acórdãos, convites, convocações, cartazes e coisas do gênero é a seguinte: - Hora redonda: às 8 horas ; 10 horas ou 10 h [abreviação sem ‘s’ e sem ponto];
- Hora quebrada: às 8h35min; 10h05min; 10h35 [sem dar espaço entre os elementos]- A grafia por extenso – que é menos visual – se reserva para convites formais como o de um casamento: A cerimônia será realizada às dez horas do dia vinte de maio.

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A vida da gente é feita assim: um dia o elogio, no outro a crítica. A arte de analisar o trabalho de alguém é uma tarefa um pouco árdua porque mexe diretamente com o ego do receptor, seja ele leitor crítico ou não crítico. Por isso, espero que os visitantes deste blog LINGUAGEM E CULTURA tenham coerência para discordar ou não das observações que aqui sejam feitas, mas que não deixem de expressar, em hipótese alguma, seus pontos de vista, para que aproveitemos esse espaço, não como um ambiente de “alfinetadas” e “assopradas”, mas de simultâneas, inéditas e inesquecíveis trocas de experiências.