domingo, 2 de junho de 2013

A INFLUÊNCIA ESPANHOLA NO PORTUGUÊS

 

 

Luísa Galvão Lessa colunaletras@yahoo.com.br

 

Falamos, em artigos anteriores, da influência de outras culturas na constituição do vocabulário português. Herdamos palavras latinas, gregas, germânicas, celtas, árabes, francesas, inglesas, africanas, indígenas etc. Hoje, comentamos a contribuição espanhola ao léxico da língua portuguesa.

Antes de tudo é bom dizer que a influência de outras culturas, no idioma português, representa uma riqueza e não um prejuízo como alguns possam acreditar, pois as palavras estrangeiras, de origens diversas, são assimiladas, no curso do tempo, ao ponto dessas formas adquiriram direito de vernaculania, que é, em síntese, a cidadania da palavra.

A língua portuguesa, segundo sua história externa, nasceu no oeste da Península Ibérica, Europa Ocidental, onde estão Portugal e Espanha. Essas terras eram domínio do Império Romano, há mais de 2000 anos. Quando o Império Romano caiu, no século V, a dialetação do latim se intensificou e vários dialetos foram se formando. No caso específico da península, foram línguas como o catalão, o castelhano e o galego-português (falado na faixa ocidental da península) as trilhas que conduziram ao surgimento do português. E foi o galego-português, precisamente, que gerou o português e o galego (mais tarde uma língua falada apenas na região de Galiza, na Espanha).

Entre meados do séc. XV e fins do séc.XVII o espanhol serviu como segunda língua para todos os portugueses cultos. Os casamentos de soberanos portugueses com princesas espanholas tiveram como efeito uma certa “castelhanização“ da corte. Os 60 anos de dominação espanhola acentuaram esta impregnação lingüística. É somente depois de 1640, com a Restauração e a subida ao trono de D. João IV, que se produz uma certa reação antiespanhola. O bilingüismo, todavia, perdura até o desaparecimento dos últimos representantes da geração formada antes de 1640. A maioria dos escritores portugueses escreve também em espanhol, por exemplo: Gil Vicente, Sá de Miranda, Luis de Camões, Francisco Manuel de Melo.

O volume de contribuição do espanhol, ao português, data, essencialmente, da época do predomínio político e literário da Espanha. Alguns dos termos, em causa, situam-se no ambiente cortesão: <<cavalheiro>>, <<lhano>>, <<airoso>>; outros se referem a noções militares: <<cabecilha>>, <<caudilho>>, <<guerrilha>>; outros à terminologia taurina: <<ganadaria>>, <<bandarilha>>, <<muleta>>; outros a costumes e vestuário tipicamente espanhóis: <<tertúlia>>, <<chiste>>, <<boina>>, <<mantilha>>, abstraindo de muitos outros vocábulos, pertencentes a campos semânticos diversos, como <<faina>>, <<trecho>>, <<tijolo>>, <<moçoila>>, <<hediondo>>,<< moreno>> e o próprio étnico castelhano, que usurpou o lugar do ant. castelão. Diga-se, ainda, que existem não poucos castelhanismos perfeitamente integrados na fonética do português e, por isso, difíceis de identificar.

A partir do séc. XVIII o espanhol deixa de desempenhar o papel de segunda língua de cultura, que passa então a ser exercido pelo francês. É nos livros franceses que os portugueses vão buscar boa parte de sua cultura, e é por intermediário dele que entram a maioria das vezes em contato com o mundo exterior. Mas essa nova tendência não apaga da língua camoniana a forte presença espanhola que perdura, na língua portuguesa, até os dias atuais.

DICAS DE GRAMÁTICA

PARA MIM / PARA EU LER

É um hábito muito arraigado no Brasil a fala "disse para mim ir, para mim trabalhar, para mim descansar". Tem uma explicação para isso, quando se considerar que toda língua transplantada é mais arcaizante que a original: no período em que se falava o português arcaico – entre os séculos XII e XVI, justamente quando o Brasil foi descoberto – usava-se o pronome pessoal sujeito pelo pronome complemento e vice-versa. Exemplos apresentados na Gramática Histórica de Ismael de Lima Coutinho (1968: 67): o coração pode mais que mim [em vez de ‘que eu’] e enforcariam ele [‘ele’ no lugar de ‘o’]. E assim usamos até hoje.

- Na verdade, segundo o padrão culto da língua portuguesa, o “mim” não faz nada. Então prefira dizer: Para eu ler, para eu fazer, para eu dizer etc.

  • Entregou o bilhete para mim. – Entregou o bilhete para eu ler depois.
  • Este presente é para mim? – Este presente é para eu embrulhar?
  • O abacaxi é para mim. – O abacaxi é para eu descascar.
  • Fez um pavê para mim. – Fez um pavê para eu experimentar.

ESTÁVAMOS "EM" QUATRO À MESA?

- Em absoluto! O “em” não existe: Estávamos quatro à mesa. Da mesma forma: Éramos seis. Ficamos cinco na sala.

Sentar na mesa/sentar à mesa

Sentou "na" mesa para comer. Sentar-se (ou sentar) “em” e “na” é sentar-se em cima de. Assim, prefira dizer: Sentou-se à mesa para comer. / Sentou ao piano, sentou-se à máquina, sentou-se ao computador.

FEBRE ALTA?

Na verdade, toda febre é temperatura alta. Febre baixa, pelo menos na medicina gramatical, não existe. Outro exemplo: tirar a pressão. Se uma enfermeira tirar a minha pressão sanguínea eu morro na hora. É bem melhor pedir-lhe para medir a pressão.

Um comentário:

Fanzine Episódio Cultural disse...

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A vida da gente é feita assim: um dia o elogio, no outro a crítica. A arte de analisar o trabalho de alguém é uma tarefa um pouco árdua porque mexe diretamente com o ego do receptor, seja ele leitor crítico ou não crítico. Por isso, espero que os visitantes deste blog LINGUAGEM E CULTURA tenham coerência para discordar ou não das observações que aqui sejam feitas, mas que não deixem de expressar, em hipótese alguma, seus pontos de vista, para que aproveitemos esse espaço, não como um ambiente de “alfinetadas” e “assopradas”, mas de simultâneas, inéditas e inesquecíveis trocas de experiências.