segunda-feira, 9 de setembro de 2013

MEMÓRIA PARA A POSTERIDADE

Ninguém nunca saberá o quanto custou a minha jornada: as horas aos estudos, ao silêncio, às conquistas, aos familiares, às confissões comigo, as perguntas, as decisões, a dor, a solidão, as renúncias, a separação, as perdas, a saudade, a alegria, as vitórias. São coisas somente minhas.  Eu sei que algumas pessoas nascem póstumas. Não é o meu caso. Sou uma ribeirinha que conquistou o mundo com muita luta. Nada foi fácil, muitos espinhos, rios, riachos, montanhas e, também, abismos. Alcancei vitórias para uma pessoa que nasceu no interior da Floresta Amazônica, onde não existia rádio,luz elétrica, sem bonecas, brincando de anmarelinha, mas leu muitos livros e por eles empreendeu numerosas viagens. Mas nem por isso eu estaria em completa contradição se esperasse, hoje, encontrar ouvidos e «mãos» prontos para as «minhas» verdades. O que hoje ouço de mim é que falta muito para alcançar, as mãos estão ainda abertas, os olhos atentos para as luzes do mundo. Minha alma abraça a vida, isso parece-me mesmo normal. Sou uma peregrina da vida! E nela aprendi que a sabedoria da vida é sempre mais profunda e mais vasta do que a sabedoria do seres humanos e dos livros. Imannoel Kanta já dizia, sabiamenta que sabedoria das mulheres não é raciocinar, é sentir. Eu sinto, profundamente, a VIDA!

 

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3 comentários:

Isaac Melo disse...

Caríssima Luísa,
deixei este texto como homenagem a seu trabalho e a você. Veja com mais detalhe lá no Alma Acreana. Eis aqui um fragmento:

"Segundo a etimologia, Luísa, palavra de origem germânica, significa “guerreira gloriosa”, “combatente famosa” ou mesmo “famosa nas batalhas”. Neste caso, vemos como faz jus a seu nome, a professora Luísa Galvão Lessa, nascida nas cabeceiras do igarapé Humaitá, afluente do rio Muru, de onde se levava oito dias de barco até atingir Tarauacá. E nossa guerreira teve que se pôr em marcha, e enfrentar as mais diversas batalhas. Formou-se em Letras, fez mestrado, doutorado e pós-doutorado no Canadá. E pouco a pouco fora se tornando famosa nas batalhas; e mais que famosa, a guerreira amada. Porque não é a batalha que torna grande o guerreiro; é antes o guerreiro que faz ser grandiosa e memorável a batalha. E o amor? O amor fora a arma por excelência dessa guerreira. Amor que brota generoso de seu coração como água de igarapé, tal como aquele que tanto a banhou. Amor, cuja expressão, foi, sobretudo, uma vida dedicada à educação. E como fez saber certo poeta, “a alma vive mais onde ama que no corpo que ela anima”. O educador é um amante par excellence. Ele não dá a asa pronta. Ele é o vento necessário que impulsiona para o voo. Não é o ‘sabedor’, é o desperta ardor. Foi o velho Rui Barbosa quem disse que um sabedor não é um armário de sabedoria armazenada, mas transformador reflexivo de aquisições digeridas. Mas, como só o mau artista se contenta com a obra que faz, a professora Luisa vê seu trabalho como algo sempre a melhorar. É a primeira crítica do próprio trabalho. Por isso, não se tornou uma sedentária do saber, mas uma sedenta de saberes e uma peregrina da vida. E é da vida que retira o seu material de saber, com o qual tece o viver. E, aqui, me faz lembrar aquele poeta lisboeta: “e os meus versos são eu não poder estoirar de viver”. Seus textos são extravasamento de vida. Não é um texto para demonstrar erudição, que, deveras, não lhe falta. É uma professora que ama, que se dá por meio do que escreve, do que ensina, do que vive."

linguagem e Cultura disse...

Estimado conterrâneo Isaac Melo,

As tuas palavras tocaram profundamente o meu coração. Não resisti a tanta emoção e as lágrimas banharam meu rosto. Mas, felizmente, elas não são de tristeza, pelo contrário, são de intensa gratidão a ti e à vida que me deu tão bons e fraternos amigos. Encontro em ti – um brilhante jovem de Tarauacá – a compreensão às minhas palavras “Memória para a posteridade”. É, de fato, um grito da “Alma Acreana” para outra alma irmã.
E tu sabes, meu nobre amigo, que nas grandes batalhas da vida, o primeiro passo para a vitória é o desejo de vencer. Esse sentimento sempre me moveu. A vida exige de nós - o tempo todo - uma grande capacidade de adaptação, mudanças, enfretamentos, superação. E aqueles que temem a mudança nunca vão adiante, levam uma vida estática por medo de novos desafios decorrentes da nossa existência.
Eu sempre procurei superar os desafios desde muito jovem. Sai de casa aos seis anos de idade para um colégio alemão. Agarrava-me às pernas de meu pai para não ir e ele dizia: “filha, é preciso ir, estudar é a grande saída”. Foi aí que comecei a aprender a transformar sentimentos menos elevados em prol da grandeza da vida, da escola, do conhecimento.Compreendi, desde cedo, que o caminho do coração é o caminho da coragem. Deixar o passado para trás e deixar o futuro SER. Também aprendi que a vida é perigosa, mas somente os covardes podem evitar o perigo, mas aí já estão mortos. Somente quem nasceu no seio da Floresta Amazônica – como eu e tu, dentre tantos outros – sabe o significado dessa palavra CORAGEM. Ela é interessante, vem da raiz cor, que significa coração. Portanto, ser corajoso significa viver com o coração. E os fracos, somente os fracos vivem com a cabeça. Receosos, eles criam em torno deles uma segurança baseada na lógica. Com medo, fecham todas as janelas e portas - com teologia, conceitos, palavras, teorias - e do lado de dentro dessas portas e janelas fechadas, eles se escondem.Nós não nos escondemos. Eu, assim como tu, fomos à luta, ‘caímos no mundo’, como se diz popularmente.
Por isso, para nós, a coragem é por em risco o conhecido em favor do desconhecido, o familiar em favor do estranho, o confortável em favor do desconfortável. É um jogo arriscado, duro, mas somente os destemidos sabem o que é a vida. Ela não brinca, não aceita piadas. Ela é “pão, pão, queijo, queijo”. O nós, nesta vida, estamos, sempre, frente ao desconhecido, não temos ‘bola de cristal’, mas fazemos por acertar, porque agimos com amor, alma limpa.
Decepções fazem parte da vida, como disse, não nasci póstuma. Foram as decepções que me ensinaram o caminho das pedras. Muitos dias tropecei, cai, chorei. N’outros caminhei tranquila, talvez passando pelas mesmas pedras, mas com os pés fortalecidos pelos ensinamentos das duras e difíceis caminhadas.
De tudo que vivi e ainda vivo, eu confesso que por vezes sinto solidão. É nestas horas que eu penso no ‘meu rio Humaitá’, minhas raízes, aí ergo-me na certeza que nunca vou me deixar abater, não por soberba, mas pela coragem de alguém que bebeu as daquelas águas turvas e, anos mais tarde, caminhou às margens do rio Danúbio, um sonho de infância.
Aristóteles disse “Eu chamo de bravo aquele que ultrapassou seus desejos, e não aquele que venceu seus inimigos; pois a mais dura das vitórias é a vitória sobre si mesmo”.
Finalmente, meu prezado amigo, para enxugar o meu pranto, neste momento de intensa emoção – vivo, como num filme, muitas histórias – eu te digo o seguinte: o Amor e a Ternura são sentimentos revolucionários, eles dão norte a minha vida. Eu amo a família, os raros amigos, minha sublime profissão. Desta última fiz meus votos de fé. Tem dado certo.
Obrigada, querido amigo. Que Deus sempre te ilumine.
Grande abraço,
Luísa

Luisa disse...

Estimado conterrâneo Isaac Melo,

As tuas palavras tocaram profundamente o meu coração. Não resisti a tanta emoção e as lágrimas banharam meu rosto. Mas, felizmente, elas não são de tristeza, pelo contrário, são de intensa gratidão a ti e à vida que me deu tão bons e fraternos amigos. Encontro em ti – um brilhante jovem de Tarauacá – a compreensão às minhas palavras “Memória para a posteridade”. É, de fato, um grito da “Alma Acreana” para outra alma irmã.
E tu sabes, meu nobre amigo, que nas grandes batalhas da vida, o primeiro passo para a vitória é o desejo de vencer. Esse sentimento sempre me moveu. A vida exige de nós - o tempo todo - uma grande capacidade de adaptação, mudanças, enfretamentos, superação. E aqueles que temem a mudança nunca vão adiante, levam uma vida estática por medo de novos desafios decorrentes da nossa existência.
Eu sempre procurei superar os desafios desde muito jovem. Sai de casa aos seis anos de idade para um colégio alemão. Agarrava-me às pernas de meu pai para não ir e ele dizia: “filha, é preciso ir, estudar é a grande saída”. Foi aí que comecei a aprender a transformar sentimentos menos elevados em prol da grandeza da vida, da escola, do conhecimento.Compreendi, desde cedo, que o caminho do coração é o caminho da coragem. Deixar o passado para trás e deixar o futuro SER. Também aprendi que a vida é perigosa, mas somente os covardes podem evitar o perigo, mas aí já estão mortos. Somente quem nasceu no seio da Floresta Amazônica – como eu e tu, dentre tantos outros – sabe o significado dessa palavra CORAGEM. Ela é interessante, vem da raiz cor, que significa coração. Portanto, ser corajoso significa viver com o coração. E os fracos, somente os fracos vivem com a cabeça. Receosos, eles criam em torno deles uma segurança baseada na lógica. Com medo, fecham todas as janelas e portas - com teologia, conceitos, palavras, teorias - e do lado de dentro dessas portas e janelas fechadas, eles se escondem.Nós não nos escondemos. Eu, assim como tu, fomos à luta, ‘caímos no mundo’, como se diz popularmente.
Por isso, para nós, a coragem é por em risco o conhecido em favor do desconhecido, o familiar em favor do estranho, o confortável em favor do desconfortável. É um jogo arriscado, duro, mas somente os destemidos sabem o que é a vida. Ela não brinca, não aceita piadas. Ela é “pão, pão, queijo, queijo”. O nós, nesta vida, estamos, sempre, frente ao desconhecido, não temos ‘bola de cristal’, mas fazemos por acertar, porque agimos com amor, alma limpa.
Decepções fazem parte da vida, como disse, não nasci póstuma. Foram as decepções que me ensinaram o caminho das pedras. Muitos dias tropecei, cai, chorei. N’outros caminhei tranquila, talvez passando pelas mesmas pedras, mas com os pés fortalecidos pelos ensinamentos das duras e difíceis caminhadas.
De tudo que vivi e ainda vivo, eu confesso que por vezes sinto solidão. É nestas horas que eu penso no ‘meu rio Humaitá’, minhas raízes, aí ergo-me na certeza que nunca vou me deixar abater, não por soberba, mas pela coragem de alguém que bebeu as daquelas águas turvas e, anos mais tarde, caminhou às margens do rio Danúbio, um sonho de infância.
Aristóteles disse “Eu chamo de bravo aquele que ultrapassou seus desejos, e não aquele que venceu seus inimigos; pois a mais dura das vitórias é a vitória sobre si mesmo”.
Finalmente, meu prezado amigo, para enxugar o meu pranto, neste momento de intensa emoção – vivo, como num filme, muitas histórias – eu te digo o seguinte: o Amor e a Ternura são sentimentos revolucionários, eles dão norte a minha vida. Eu amo a família, os raros amigos, minha sublime profissão. Desta última fiz meus votos de fé. Tem dado certo.
Obrigada, querido amigo. Que Deus sempre te ilumine.
Grande abraço,
Luísa

A vida da gente é feita assim: um dia o elogio, no outro a crítica. A arte de analisar o trabalho de alguém é uma tarefa um pouco árdua porque mexe diretamente com o ego do receptor, seja ele leitor crítico ou não crítico. Por isso, espero que os visitantes deste blog LINGUAGEM E CULTURA tenham coerência para discordar ou não das observações que aqui sejam feitas, mas que não deixem de expressar, em hipótese alguma, seus pontos de vista, para que aproveitemos esse espaço, não como um ambiente de “alfinetadas” e “assopradas”, mas de simultâneas, inéditas e inesquecíveis trocas de experiências.