quarta-feira, 18 de setembro de 2013

PASSADO E PRESENTE–Fragmentos de vidas

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Tarauacá do passado – memória

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Tarauacá de hoje – mesmo local após 100 anos.

Estimado Isaac Melo,

Estive aqui refletindo como escrever algo para acarinhar o homem ilustre, amigo e nobre que és tu. E mais: fazer isso usando poucas palavras. Então eu procurei sentir o significado de ser amigo, ser íntegro, corajoso, valoroso filho de Tarauacá.

Foi então que me veio à mente existir pessoas que queremos por perto porque sabem ouvir; sabem conversar como se estivessem sentadas ao nosso lado, mesmo estando longe; sabem repartir alegrias, histórias no tempo da vida; percebem quando precisamos de incentivo; oferecem flores para alegrar o nosso dia; são gentis e generosas. Tu reúnes tantas coisas belas que não encontro as palavras para traduzir essa pluralidade singular. Mas tudo isso és tu, a tua essência seringueira, uma reunião de humanismo, força, coragem, integridade, sabedoria, humildade.

Então, como não ficar emocionada?! Sinto orgulho em dialogar contigo. Por isto tudo estou aqui, outra vez, para agradecer a delicadeza e grandeza de tua mensagem. Ela trouxe mais fortalecimento para a minha alma. Por tuas palavras eu viajo no tempo, na região do nosso berço, e sinto mais forte a importância de olhar para o horizonte, para o alto. Sei que de lá vem a força, a coragem e a vontade de lutar pelos nossos objetivos.
Quando olhamos para o horizonte ou para o alto das árvores amazônicas, avistamos o quanto somos pequenos perante a vida. E, neste olhar infindo, definimos, com mais afinco, que os nossos sonhos podem ser realizados, isso porque nos fortalecemos nas águas caudalosas dos rios, riachos e igarapés de Tarauacá. Daí, torna-se compreensível o nosso crescimento espiritual, conforto de nossas almas.

Eu desejo a ti, meu jovem amigo, que continues a subir as tuas montanhas, com determinação, e que tua fé seja a tua força para chegar ao topo delas, igualmente as sementes da Samaúma, que voam ao sopro do vento, para povoar e fazer altaneira a Floresta que embalou nossos sonhos infantis. Tu sabes que o voo até a Lua não é tão longo como se imagina. As distâncias maiores que devemos percorrer estão dentro de nós mesmos. Siga as tuas trilhas, ruas, avenidas, rios, lagos, ao alcance do mar.

E eu sei, assim como tu sabes, que a vida só pode ser compreendida olhando-se para trás. Mas só pode ser vivida olhando-se para a frente. Assim, eu sinto em ti, nas tuas palavras, o espelho por onde os justos deveriam se olhar para construir um mundo mais humano e mais feliz. Pois olha o que me dizes: (não posso guardar tão preciosa lição de vida, tradução da nobreza de ilustre tarauacaense --- esse gentílico é um trava-língua, heim?)

Querida Luísa,

fico profundamente lisonjeado por suas palavras. Oxalá esteja eu à altura delas. No entanto, vindas de você, sei que são sinceras. E acolho-as como um grande prêmio. O que torna nossas almas semelhantes é mais que o caráter histórico-territorial a que pertencemos, o que, para nós, não é pouco. Irmanamo-nos porque antes de tudo amamos a sabedoria, o ser humano e as coisas simples e autênticas da vida. Você e eu somos filhos de seringal, irmãos das matas, dos pássaros, das águas. Deves lembrar como é altaneira e majestosa as samaúmas de nossa terra. E quem imagina que suas sementes sejam tão pequenas e leves, que, quando rompe a vargem que as envolve, são levadas pelo sopro manso floresta adentro. O intinerário humano, penso, é semelhante ao da samaúma. Nascer pequeno, no húmus, até agigantar-se, sem, todavia, desarraigar daquela humildade primordial. Você, minha amiga, é grande. Mas não cultiva a grandeza para si, e nisso reside verdadeiramente a sua grandeza. Há tantas pessoas por aí repletas de títulos e ensoberbadas de si. Eles são seus títulos, e nada mais. Enquanto você, e tantos outros, nos oferece a sua alma. Uma alma prenhe de ciência e amor. E ainda que “falássemos a língua dos homens e dos anjos se não tivéssemos amor” toda a melodia de nossa vida não passaria de um ruído desagradável. Quero pensar na vida como uma canção. Cada um é uma nota. O que faz uma bela melodia é a harmonia das diferentes notas. É pobre de mais a canção e as vidas de uma nota só. A canção humana se torna mais bela com a multiplicidade de nossas almas a se cruzar. Tantas vezes os corpos físicos estão distantes, mas as almas dançam juntas onde quer que estejam. Só o coração vai aonde os olhos não alcançam.
Se me destes a honra de chamá-la de amiga, permita dizer também minha mestra. Sede de sabedoria lateja em mim, e encontro em você uma fonte, um igarapé abundante. Desculpe minhas pobres palavras, disse o autor de ‘Doutor Fausto’ que o essencial não se ajusta inteiramente às palavras. E penso ter ele razão. No mais, sigo o conselho de Proust, o de que devemos ser gratos às pessoas que nos propiciam felicidade, pois são elas os encantadores jardineiros que nos fazem florir a alma.

Bebeu palavras preciosas,
Seu espírito cresceu forte.
Não mais sentiu que era pobre
E sua estrutura pó.
Em dias sombrios dança
E este legado de asas
Não foi mais que um livro. Um só.
Que voo sereno e certo
O de um pássaro liberto!
Emily Dickinson

Em tua homenagem, Isaac Melo, trago, aqui, um poema-hino à nossa Tarauacá, aos tempos de infância, a tua poesia a cantar um pouco da nossa história.

SERINGAL - Isaac Melo

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Às margens do Rio Acre

a recordar o meu Tarauacá

sentir um aperto no peito

ao ver as águas a galopar

sob o corcel de um repiquete

e por um momento juro que vi

enquanto gorjeava o canoro Bem-te-vi

os navios gaiolas a atracar

uma multidão a acenar

outras a chorar...

vi balsas de borracha

vi regatão

vi seringueiros

vi batelão

vi catraieiros

              pra lá e pra cá...

vi o banzeiro

e o remo a fazer

              chuá, chuá...

À minha saudade que vive a vagar

por entre igapós e matagal

vou abrir seringal

onde possa enfim descansar...

* Versinhos dedicados à Leila Jalul, Luísa Lessa e Simone Bichara.

Um comentário:

Isaac Melo disse...

Luísa guerreira
a ensinar este filho da mata
de alma seringueira
a também tornar-se guerreiro

toda vez que teu nome ouvir
se abrirá meu coração
como as asas de um bem-te-vi
num poema de gratidão


Obrigado!

A vida da gente é feita assim: um dia o elogio, no outro a crítica. A arte de analisar o trabalho de alguém é uma tarefa um pouco árdua porque mexe diretamente com o ego do receptor, seja ele leitor crítico ou não crítico. Por isso, espero que os visitantes deste blog LINGUAGEM E CULTURA tenham coerência para discordar ou não das observações que aqui sejam feitas, mas que não deixem de expressar, em hipótese alguma, seus pontos de vista, para que aproveitemos esse espaço, não como um ambiente de “alfinetadas” e “assopradas”, mas de simultâneas, inéditas e inesquecíveis trocas de experiências.